Sonata da Cerveja (para pianos desafinados)

( Thalita Coelho )


Mariana andava nas ruas pedindo dinheiro pra cerveja. Era descabelada, tinha no mínimo a mesma quantidade de espécies de piolho que Bob Marley em seus últimos dias e andava com um tênis que havia ganhado de uma velhinha da igreja, que vivia fazendo rifas e arrecadações para “jovens carentes”.Mariana não era carente. Ela não pedia porque era pobre, nem porque sentia fome. Mariana queria cerveja, e foi cerveja a vida toda que ela pediu.

Ela andava sempre com um daqueles copos de plástico de criança, que ao ser movido, tilintava estrelas coloridas. Achou-o num lixo de um desses ricos, que havia jogado o copo fora por conta de uma rachadura que nem ao menos fazia o líquido escorrer, e mesmo assim o copo foi jogado numa lixeira fedida.

Mariana também foi abandonada numa lixeira fedida. Achada por um casal de mendigos, criou-se na rua e não se lembrava de nada que não fosse o sabor amargo e delicioso da cerveja, essa,  que ela experimentou com 14 anos e dali não parou mais de experimentar. Ela conhecia vários tipos de suco de cevada pois sempre que ganhava moedas, por pedir, ou mesmo por cuidar de carros, ela direcionava pra cerveja de cada dia, e comida bastava a que achava na lata de lixo. Os mendigos que criaram a menina desgrenhada, já haviam partido dessa (pra pior), e a menina apesar de ser arisca e solitária, sentia falta dos abraços suados da mãe e do sorriso banguela do pai.

Mariana um dia acordou-se, e notou que não dormia mais no banco de praça que era seu lar. Estava numa sala branca, limpa, com uma cama macia e simples. Quando saiu do quarto, notou a presença de outros jovens, todos vestidos de branco e amoados em cantos. Ouvia-se de longe uma voz cantando algo que Mariana achou ter ouvido num desses carros cheios de tunning.

Ela andou até a enfermeira que estava na sala, e disse a ela a única coisa que sabia dizer com firmeza:

_Cerveja.

A enfermeira levantou os olhos da Revista Caras.

_Vá ver TV, querida.

Mariana repetiu. Repetiu, repetiu, repetiu. E ficou assim até que a enfermeira chamasse homens grandes e com dedos grossos, que carregaram Mariana em direção a uma sala, no caminho ela tentou soltar-se, foi derrubando cadeiras, mordendo tudo que encontrava por perto e gritando pela única coisa que a curaria. Por fim os homens amarraram-na numa maca com cintas presas ao seu corpo, e lhe deram choques suficientes pra deixá-la besta.

Mariana não acordou por um bom tempo, num canto do quarto acolchoado estava o copo com estrelas coloridas, e nas roupas, algo que se assemelhava delicadamente com o odor da cerveja: mijo.