Reticências

( ferioxp )


Enquanto a garrafa de cerveja precipitava-se em câmera lenta mesa afora, o copo já alcançava o chão, espatifando-se em minúsculos caquinhos. A franja castanha redemoinhava no ar, fios soltos, encobrindo parcialmente os olhos assustados.

May observa algo, séria,tocando de leve o vidro gelado da janelinha do quarto, a lágrima caindo dos olhos verdes. São belos esses verdes refletidos, porque choram.

Rui cai vagarosamente sobre o chão elameado da rua, a lama escura, os cabelos encharcados,escurecendo, grudando. Move as pernas em desespero, na tentativa de levantar-se rapidamente.

May larga devagar o objeto brilhante que cai, escorregando pelas almofadas vermelhinhas, indo rolar num outro extremo da sala, tilintando uma musiquinha distante.

Rui fita o céu a despejar grossos respingos, gotas salgadas de chuva. O outro, o que empurrou-lhe bar afora, aproxima-se, garrafa em punho, e pula sobre o garoto, distribuindo-lhe golpes com a garrafa na cara. Ele Reluta. Erguer-se  num safanão, apoiando-se numa mureta. No ardume da escuridão, o rubro queima-lhe o rosto, escorrendo.

May vira-se, a luz da janela atingindo-a na face semi-iluminada, a luz filtrada em gotículas de chuva que escorrem insistentes pela janela. Ela aperta o dedo girando-o em traços invisíveis sobre o vidro. Vê rostos pálidos refletidos na luz macia da varanda, acompanha-os com o dedo a acariciar-lhes. Sente o sangue ferver-lhe a revolta, impulsionando nas veias o ódio seguido de mais choro de quem se arrepende. No ardume da escuridão, o rubro queima-lhe o rosto, subindo-lhe à cabeça.

Entre o bar e a janela, um garoto sorri. Sorri recebendo os mesmos respingos, estes reais, sobre seu corpo encolhido, sentado ao parapeito de uma outra janela, copo de cerveja vazio sobre a outra mão. Observa as luzes que piscam de um lado para o outro, atravessando a cidade na madrugada.
A mente antes febril que remoia reviravoltas para a menina e para o rapaz, esfria-se como  brasa incandescente lançada sobre a água fria que escorria pelas calhas. Sonolento, decide guardar suas idéias para mais tarde, deixando entre outras folhas amassadas da prancheta velha, algumas cenas estáticas, como a tela pausada do outro filme lá de dentro, com o senhor bonachão apontando a arma para a moça sedutora. Larga a caneta pelo chão e bocejando, arrasta-se até a cama, quase tropeçando numa garrafa vazia.
A empregada desfaz-se das folhas naquela mesma manhã.