Joana, o cabo de vassoura e o avental de margaridas

( Sarah Zewe Uriarte )


E ela me olhava, me chamava, me gritava. Do outro lado da rua, minha mulher fazia o mesmo. Estava entre elas: a mulher e a cerveja. E por mais que aquela cena me soasse um tanto patética: um homem perto de seus 40 anos, não de todo feio, mas com uma barriga considerável e meio careca, sentado na mesa de um bar, fitando um copo de cerveja e desejando que ele fosse seu, assim como as garotas no balcão; e sua mulher do lado oposto, com seu avental de margaridas e o habitual pano de louça pendurado no ombro, chamando seu nome. Talvez, fosse exatamente por isso que gostava tanto da cerveja: não usava avental de margaridas, nem pendurava panos de louça como acessório.

E dia após dia, a cena se repetia. No mesmo bar, na mesma rua e com a mesma mulher. Tudo comum demais, rotina demais, cotidiano demais. Mas algo mudava cada vez que eu me sentava na cadeira dura e fria do bar fedorento: as mulheres no balcão me pareciam cada vez melhores, e a cerveja também. Não sabia até quando poderia continuar suportando o martírio de voltar pra casa, e ouvir sempre a mesma ladainha, as crianças chorando, o cachorro latindo e a reclamação da mulher de que falta dinheiro pro leite e eu, em vez de trabalhar, só sei admirar cerveja. Não mulher, aí que tu te enganas: também sei admirar mulher, quando não é a minha.

Depois de muito choro e briga, acatei a decisão da Joana, a conhecida mulher do avental de margaridas: comecei a trabalhar. Nada que me desse muito prazer ou dinheiro, já que cuidar da porta da escola pros pirralhos não fugirem não fazia minha cabeça. Mas tudo bem, talvez sobrasse dinheiro pra cerveja no fim do mês, não é? Não. A maldita da Joana tinha sempre que arrumar mais despesa, mais leite, mais pão, mais produtos de limpeza que deixavam minha casa, que já não era meu lugar favorito, com cheiro de mato e limão. Não conseguiria mais agüentar. Definitivamente, ela ia ser minha. A cerveja, não a mulher. Infelizmente, pra segunda ainda não tinha coragem. Pensava nas crianças.

Saindo do trabalho em mais um dia chato e sem graça, segui minha rotina: parar no bar antes de ir pra casa, com a desculpa de que era dia de jogo e eu não podia perder, já que a TV de casa como sempre tem problema (entenda “novela” como problema). Mas aquele dia ia ser diferente, e eu sabia disso. E exatamente por este motivo, resolvi não perder tempo: chamei o garçom baixinho e gordo, e pedi que me trouxesse a tão sonhada cerveja. A partir daí, perdi o controle.

De lá pra cá, tive tempo suficiente pra chegar à conclusão de que alguém que já foi alcoólatra pode passar anos sem beber, mas basta um copo de cerveja. E quem me disse isso foi Joana, pouco antes de me botar pra fora de casa junto com minhas velhas tralhas, o que aconteceu logo depois que eu, sem controle, a enchi de bofetadas na frente das crianças. Sem rumo ou direção, olhei pro bar que fez a desgraça da minha vida. O garçom, aquele, baixinho e gordo, fechou a porta na minha cara e me disse pra voltar no dia seguinte. Definitivamente, não sabia pra onde ir com tudo que eu tinha: algumas roupas velhas, a camisa do meu time, meu pandeiro, alguns retratos de velhos amigos e o pescoço doendo da paulada que levei da Joana, que fica perigosa com um cabo de vassoura.

Ela me mostrou que pode acabar com uma vida. Não que eu tivesse sido muito feliz, mas tinha uma casa e uma cara pra olhar pras crianças. E quem me mostrou isso foi ela, e olha que não estou falando da mulher do avental de margaridas.