Infernalmente gelada

( Alcyr Spíndola )


Záu estava irrequieto. Bom, demônios estão sempre irrequietos, mas a falta de atividade o deixava mais irrequieto. Ele era um demônio menor, nunca tendo sido “famoso”, teve sua fase áurea alguns séculos atrás, quando o aumento da população humana aqueceu o mercado de trabalho dos demônios. Depois, os humanos se tornaram mais independentes e demonstraram sua grande capacidade de fazer o mal por conta própria, dispensando da ajuda dos demônios. O mundo ficou quase tão chato quanto aquela época entre a criação do universo e o surgimento da humanidade: milhões de anos e nada pra fazer. E cá estava ele, parado de novo. Entediado, ele resolve deixar o inferno e vir checar o que o seu padre pedófilo favorito estaria aprontando. Seria apenas uma missão de observação, já que o padre em questão não precisava de nenhum incentivo ao pecado, mas serviria para passar o tempo até que surgisse uma nova inspiração para agir, pois Záu, como bom demônio que era, preferia um papel mais ativo em seus negócios. Assim como o padre. Mas no caminho até o padre, Záu topa com uma distração.

Duda sentia a curiosidade cada vez mais forte. Não a ponto de forçá-lo a fazer algo muito errado, mas forte o suficiente para fazer algo que, mesmo que para ele não parece errado, pareceria para os outros, principalmente para seus pais. Ficando sozinho em casa todas as tardes, não faltavam oportunidades para a ação, e o objeto de sua curiosidade estava a poucos passos de distância, na cozinha da sua casa: A geladeira, branca, limpa e, o mais importante, com várias garrafas de cerveja em seu interior. Seus pais bebiam ocasionalmente, ninguém sentiria a falta de uma. Com a casa vazia, nenhum vizinho bisbilhoteiro em volta, ele tinha certeza que sua ação não iria atrair a atenção de ninguém. Era só se decidir e fazer.

O anjo sentia que havia algo errado mas não conseguia identificar o que era. Não era só aquela sensação de que uma alma pura (bem, não realmente pura, mas…) estava pensando em fazer algo errado, pois isto era algo bastante normal. Quer dizer, almas quase puras não eram exatamente comuns, mas as que existiam estavam sempre prestes a fazer algo errado e se tornarem ainda menos puras. Era algo mais… Ah, sim, ali estava o problema. Por algum motivo esta alma em questão havia atraído a atenção de um demônio qualquer. Bom, isto também não chegava a ser empolgante, disputar a consciência de um pré-adolescente com um demônio do, digamos, baixo-clero, não era nada demais, nada que justificasse o seu salário, mas pelo menos o distrairia dessa sua nova obsessão com o seu nome, que estava começando a irritá-lo seriamente.

E Duda continuava em dúvida. E se depois de beber ele não conseguisse se controlar e botasse fogo na casa? E se ele vomitasse na cozinha? E se ele gostasse tanto que não conseguisse mais parar de beber? E como ele se justificaria caso fosse pego? A última das dúvidas era a única com que ele realmente se preocupava. As outras podiam ser graves mas eram muito improváveis. Como ele vinha descobrindo, a maior parte das coisas que os adultos o proibiam de fazer eram bastante inofensivas. No seu processo normal de amadurecimento ele vinha quebrando várias regras ultimamente: primeiro assistiu um DVD de sexo explícito, depois pegou um ônibus sozinho até o outro lado da ilha e, finalmente, beijou a Aninha na boca. Todas estas coisas o haviam excitado, feito a adrenalina rugir no seu sangue. E ele não teve problema com nenhuma delas. As advertências adultas sobre a bebida eram, com certeza, exageradas como sempre. Por outro lado, talvez ele não devesse experimentar, afinal, a cerveja parecia ser mais uma daquelas coisas que só adultos gostavam, tipo alho, cebola e estrogonofe. E, além do mais, seus pais eram legais, ele não gostaria de entristecê-los, que é o que ocorreria se eles descobrissem sua “aventura”. Mas só se descobrissem.

Záu percebeu que era hora de intervir. O garoto estava com dúvidas. Convencê-lo a beber um copo de cerveja não seria o ponto alto do seu currículo, mas também não era nada do que se envergonhar. E, além disto, demônios nunca se envergonhavam.

Duda pega a garrafa e fecha a geladeira. Mas ainda não era o momento. Daqui a 5 minutos, talvez. Mais cedo ou mais tarde ele tomaria a decisão, mas enquanto isto ia ler alguma coisa, ver TV, jogar um game. Tudo ao mesmo tempo. Liga a TV, pega o celular e abre a revista ao acaso.

Záu vibra. Um pequeno truque e a revista abre justamente numa das páginas de propaganda de cerveja: uma linda popozuda, seus atributos ainda não totalmente apreciados pelo garoto mas perfeitamente apreciados pelo demônio, olha com admiração o fortão que lhe oferece uma cerveja. Com inveja, Záu pensa no demônio encarregado de “inspirar” publicitários – isto é que era trabalho – e se prepara para comemorar. Mais um segundo de admiração da popozuda e o garoto ia correr pra garrafa. Nisso o telefone toca e o garoto larga a revista. “Diabos”, pensa Záu. E então ele percebe. Havia algo errado, não era para o telefone ter tocado. Alguém, além dele, estava interferindo. Sim, ele quase podia sentir a preseça… ali estava, um anjo! Talvez até ele o conhecesse… Sim é ele, aquele anjo sem graça. Qual era mesmo o nome dele? Abel? Joel? Miguel? Não.

O golpe do telefone havia funcionado. Simples e eficaz, foi o suficiente para fazer Duda largar a propaganda sub-liminar demoníaca. E ele havia gostado do garoto, o tal do Duda. Aliás, Duda era um bom nome. “Pare!” Pensou o anjo, pois viu que estava começando a divagar, mais uma vez, com a história do nome. Seu nome nunca havia chegado a incomodá-lo antes. Não era um nome tão bom quanto o de seus irmãos – Miguel, Gabriel e Rafael – e nem era ele um anjo tão formidável quanto eles. Mas nas últimas décadas uma enxurrada de piadas havia mudado isto. Um anjo deveria estar imune a isto, mas ele não estava. Se pudesse, trocaria de nome. Não precisaria nem ter a tradicional terminação em “el” dos grandes anjos. Podia ser qualquer um, menos o seu nome, menos…

– … Manuel! Grita o demônio.

Deus, ele REALMENTE odiava o seu nome. Principalmente quando urrado por demônios.

O garoto vira a cabeça em sua direção, parecendo ter um sorriso no rosto, como se tivesse ouvido algo engraçado. Será que o garoto ouviu o nome? … Não, óbvio que não, ele não poderia ter ouvido.

– Záu! Você não deveria interferir com este garoto – Manuel sempre achou muito intimo tratar demônios pelo nome, mas não via saída. “Sr. Záu” seria ridículo. “Demônio Záu” ficava muito imponente, não combinava com aquele demônio, que ele conhecia de outras batalhas. Teria que ser Záu mesmo.

– Humm. Problema meu. E ele tá no papo. Não vai ser com um truquezinho de ligação telefônica que você vai salvá-lo.

– Número errado. Aqui é Duda. Não, não mora nenhum Joaquim aqui.

Záu teria piscado quando Duda falou “Joaquim”? Manoel decide ignorar.

Uma propaganda de cerveja começa a passar na televisão. Obra de Záu, claro, já que à tarde não passam estes comerciais. De novo uma boazuda, e de novo Záu admira a eficiência dos seus colegas publicitários.

No contra-ataque, Manuel consegue exibir uma propaganda do dias dos pais. Os publicitários são muito melhores quando estão do lado do mal, pensa alto Manuel, ao ver a propaganda melosa.

– Eles sempre estão do lado do mau – responde Záu, continuando a sua conversa telepática.

Duda fica parado em pé, entre o telefone e a TV com as propagandas de cerveja.

– Já que estou de pé, vou abrir a cerveja de uma vez – pensa Duda.

– Já que você está de pé podia abrir a cerveja de uma vez – Diz Záu, no ouvido do garoto.

– Sem essa! – diz Manuel. – Ele já havia pensado isto sozinho! Você tá muito lento, Záu, não consegue nem influenciar um menino.

Duda pega a garrafa e vai em direção ao copo, antes que Záu ou Manuel façam qualquer coisa.

– Ganhei! – Grita o demônio meio sem convicção, pois o garoto realmente estava agindo por conta própria. O resultado final podia ser o mesmo, mas Záu teria muito menos prazer sabendo que não era ele o causador do “pecado”.

– Eu experimento mas depois eu conto pra Mãe – Pensa Duda.

– Ao menos você devia contar pros seus pais – Sussurra Manuel.

– Ah-ha!!. Quem é que está lento, hein Manuel ?!?! O garoto também pensou isto antes de você sugerir.

E enquanto os dois discutem Duda se resolve. Põe a cerveja no copo. Ela está linda, com aquela cor amarela, aquele monte de bolhas e o colarinho cremoso. Ele bebe meio copo rapidamente. A cerveja era decepcionante: Amarga e com gosto de algo estragado. As dúvidas sumiram, todas as decisões dele estão claras. Não, não vai contar aos pais. Não é tão importante assim, daria muito trabalho explicar, eles não entenderiam e isto não ajudaria em nada. Não, não se fica bêbado com meio copo de cerveja. Nem tonto! Decepção total. Quebrar as regras é divertido mas, com exceção da pornografia, até agora ele não encontrou nada no mundo adulto que valesse a pena repetir.

Duda pega a bola e sai de casa em busca dos amigos. O anjo e o diabo se encaram, frustrados. Mais duas profissões em vias de extinção. Então Záu diz:

– Bom, ele deixou a garrafa quase inteira… Que tal um golinho?

– Prefiro chope – diz Manuel, enquanto pega um copo – “Mas já que só tem cerveja…”

– Humm. Divinamente gelada! – Diz Záu.

– Infernalmente gelada!! – Responde Manuel.