Pedrinho

( Julia )


Quem sabe sábado me pula um sapo no colo e eu o coloco dentro da minha caixa de brinquedos, pensou ele. Sem saber que nenhum sapo lhe prestaria o favor de refugiar-se numa caixa de sapatos – sem brinquedo algum para fazer-lhe companhia – dormiu Pedrinho pensando em como faria para capturar os répteis que religiosamente apareciam no quintal.

Joana, a bela Joaninha, que tinha todos os príncipes aos seus pés, nem se importava com busca alguma. Para ela tudo era acessível, tudo quanto desejasse virava realidade. Parecia ser daquelas que tinha uma lâmpada mágica debaixo de seu travesseiro. Travesseiro, que assim como a colcha, era todinho bordado e muito macio.

Pedro de Mello, o menino amarelo. O Pobrezinho, que nem no nome teve sorte, foi fugindo da morte desde o primeiro respiro. Mas depois do parto difícil, de escapar das surras e das febres, do olho-gordo e todo o resto, safou-se. E safou-se quase que por completo, faltou um dedinho só pra dar-se isso como efeito. Sim, apenas um dedinho, pois que um da mão direita ficara torto. E isso foi tudo o que lhe restou como lembrança de passagens sofridas. “Mas antes torto do que morto”, pensou o serelepe.

Todos os dias passava pela confeitaria do pai de Joaninha. Não sabia ele se o que mais lhe apetecia eram os doces da vitrina ou os carnudos beiços da menina. Na dúvida, mirava, apreciava e desejava ambos, sempre ávido por tocar estes e àqueles. Dona Maria, mãe de Pedrinho,que todos os dias observava o interesse do rapaz, questiono-o certa vez sobre sua fixação. Respondeu, com total simplicidade e ensaiada sinceridade que queria apenas poder experimentar um dos apetitosos doces. A mãe então sugeriu que escolhesse o que quisesse, pois que não mais conseguia vê-lo naquele desespero diário. Apanhado de surpresa, apontou prontamente o primeiro doce que lhe veio à mente: o chocolate com amendoim, que ficava bem ao lado do caixa. Era,certamente, o mais provável de ganhar, sendo este o mais barato dos doces e estar ainda bem na entrada da loja. Sabia que a mãe não era dada a passeios e compras futéis. Sabia também que os motivos não eram poucos, pouco era o dinheiro. E sabia ainda, que ela nunca era muito bem tratada dentro destes lugares. Justificava-se, portanto,a escolha por tal chocolate.

Com o coração pulsando mais forte do que quando corria atrás de seus sapinhos, Pedrinho adentrou à confeitaria. Suava frio. Respirar, nem respirava. Caminhou ao lado de sua mãe até o balcão de pagamento, onde estava seu objeto de desejo. Frente a frente com o pretendente a sogro, agora na condição elegante de cliente, sentiu uma certa segurança e orgulho de si mesmo,apesar do nervosismo. “Então o que vão querer?”, indagou com aquela voz grossa e firme, o dono da confeitaria. Pedrinho, que agora já respirava, não conseguiu fazer mais do que esticar seu dedo torto e apontar para o chocolate. “Cena mais atípica, não vi!Um menino (pobre) com o dedo torto apontando para o chocolate (mais caro que tenho)”,foi o que pensou o pai da Joaninha. Sorriu gentilmente para o garoto e sua mãe, e estendeu-lhes duas barras do chocolate importado. Isto seria motivo suficiente para fazer deste o dia mais feliz da vida de Pedrinho. E que dizer do sorriso que lhe deu Joaninha detrás da porta de vidro, logo atrás do pai? De roxa que estava, ficou branca sua face; Pedrinho viu ali o motivo de sua existência. O pai,mandando que a menina se aproximasse, disse que sabia serem colegas de classe e que ficaria feliz se eles se juntassem todas as tardes para estudar. E terminariam as tardes de estudo com um lanche na confeitaria. A intenção do pai era a melhor, afinal, a fama da esperteza e perspicácia de Pedrinho era conhecida em toda a redondeza. O menino, feliz e surpreso, pode esboçar nada mais que um sorriso de aprovação. “Então, está bem! Espero você amanhã à tarde para começarem. E os chocolates por conta da casa, em sinal de minha gratidão.”

Na tarde seguinte, pouco importando se era doce ou menina, tascou-lhe uma lambida ao pé do ouvido, o que lhe rendeu uma pisadela e um empurrão que o derrubou prontamente. Os dois riram, mas riram tanto que nem se lembraram de um dia terem sido estranhos um ao outro. Pedrinho abraçou-a pensando, amanhã tento outra vez.