O menino com o dedo torto apontando para o chocolate

( Agente do Caos )


Cuidado com o que se deseja, já falava alguém. Eu queria ser agente de campo, esse negócio de perito de computadores enfunado numa sala estava me dando nos nervos. Resolvi arriscar-me mas a vida bate nos incautos.

Atravessei a rua sem delongas e aguardei na calçada até Jóia me alcançar. Entrei no restaurante e escolhi uma mesa aconchegante e discreta no canto. Um casal ligeiramente tímido, tomando um suquinho de manga num dia ensolarado e frio de inverno. Prosaico. Ilusório.

O restaurante era todo envidraçado, a claridade intensa penetrava e ofuscava. A imagem surreal de uma tarde brilhante, impregnava nossas mentes, enquanto o relógio tiquetaqueava e o mistério persistia. Jorge morreu sem passar adiante o material, mas deixou uma pista. Minto, ele disse algo, imaginávamos que era uma pista.

“O menino com o dedo torto apontando para o chocolate”

– Pode ser que seja apenas uma lembrança da infância… – me disse ela.

– Pode ser qualquer coisa Jóia! – falei entre dentes – Ele pode ser um pedófilo e estar lembrando do mais recente catamita que ele alugou!

– Vim pegar um pacote que não sei do que se trata e que não sei aonde está. – falou com raiva Jóia, e completa rosnando: Na primeira oportunidade vou estourar os miolos de alguém!

– Mercenários – suspirei, maldizendo minha sorte e companhia.

A porta do restaurante é escancarada, eu quase caguei nas calças! Jóia que estava de frente da porta nem se mexeu.

– Se acalme, é só um playboy metido a besta fazendo sua entrada triunfal. – Ela me indica com um movimento da cabeça o casal que entrou de supetão no restaurante: um pit bull que deve ser modelo do XYZ Body Modeler 2000 e a patricinha saradíssima e superproduzida.

– Note a garota, como perscruta o ambiente ansiando pelos olhares de desejo e inveja.

– Essa tua fissura de ficar analisando todo mundo não vai ajudar merda nenhuma. – estava ficando desesperado – Porra!

– Esfrie sua cabeça, vou manter-me atenta às questões de segurança.

– Merda! Quando acharem o corpo de Jorge estaremos fodidos. Que porra de menino do dedo torto o caralho!

A caravana do Beto Carreiro despontou na curva da avenida, trazendo uma penca de carros alegóricos de gosto duvidoso com (des)animadores vestidos com motivos diversos. Me distraía com esse desfile brega de alegorias tentando saturar a mente com referências imagéticas pra ver se efervecia alguma solução. E de longe, aquele totem de origem indistinta até que parecia um chokito, hehe, só faltava um menino no carro de trás apontando um dedo torto…

– Puta que o caralho! O menino! – Falei em voz alta e pulei da cadeira, que voou longe e fez grande estardalhaço.

Todos no restaurante me olhavam, o pit bull me encarou como se dali não pudesse sair uma boa briga. Jóia me pega pelo braço e grita:

– Porra Caolho – ela me olhou diretamente nos olhos – o menino está em boas mãos, tua mãe sempre tratou ele bem! – soltou, não, jogou meu braço com violência e continua – é só a gente sair de férias que tu fica alucinando com aquele mimado do teu filho o tempo todo! Não é a toa que ele tem dez anos e ainda mija na cama! – sacou uma nota de cinqüenta e colocou na mesa – Vâmo pra casa que lá a gente conversa! – e foi me empurrando pra fora do restaurante.

Caralho, minhas calças estavam com sorte! Já na rua Jóia me puxa pra perto dela e sussurra – Explica agora seu merda!

– Um dos carros alegóricos do Beto Carreiro, tinha vários anões vestidos de aborígenes adorando a um chokito gigante! – falei excitado!

Jóia estava incrédula não deixou barato:

– Simples assim? E a porra do pacote foi parar lá como? Foi invocado? E porque ele iria colocar um pacote num lugar tão exposto? Não é só uma coincidência infeliz? – Ela falou com uma voz ferina demais  pra que eu me sentisse seguro.

– Custa chegar perto pra conferir? Tamos fodidos mesmo!

Jóia exita, fecha a cara, mas me puxa pelo braço e segue pelo calçadão da Atlântica em direção ao carro alegórico que se arrastava pra longe. E lá estavam os aborígenes anões e o totem de uma cultura indistinta que mais parecia um chokito.

– Tem alguma idéia de como é o pacote? – perguntou Jóia.

– Não. – Eu nem sabia quem era o tal de Jorge e nem porque ele ia entregar o pacote!

– Mantenha-se perto do chokito. – ordenou e atravessou pro outro lado da rua e sumiu por detrás do carros dos anões.

Continuei andando e consegui vislumbrar Jóia do outro lado conversando com um cowboy. Ela era muito gostosa e obviamente sabia usar isso. Perdi ela de vista momentâneamente por detrás do carro, e então o cowboy subiu no carro com Jóia a tira-colo! Ele amarrou ela no chokito, e ela fazendo caras e bocas de menininha frágil e donzela em perigo! A pirralhada, digo, a anãozada ficou excitada com a donzela amarrada naquele símbolo fálico! Tive a nítida impressão que Jóia estava curtindo além do necessário.

Continuei acompanhando a pé, apreensivo, o comboio de carros alegóricos do Beto Carrero, tentando identificar num dos anões algo que pudesse indicar que ele fosse agente, um portador, um mensageiro, sei lá! O desespero crescia, o corpo seria descoberto, a missão falharia miseravelmente, e a minha tão sonhada transferência pra agente de campo iria pras cucuias. Logo a disputa entre eles pra ver quem ‘aterrorizava’ a donzela revelou um líder: o  anão com um cajado torto!

Tentava manter a calma e bolar uma captura seguida de retirada sem deixar rastros, quando percebi que estávamos sendo seguidos por dois brutamontes que mantinham o olhar grudado em Jóia e nos anões. O primeiro, moreno do queixo quadrado, era o cãozinho seguindo o loiro de cara de moça, delicado no limite cabível para um brutamontes. Eles estavam acompanhando o carro e num movimento mais brusco do anão com o cajado, parece que se aperceberam de algo e se colocaram em rota de abordagem. Pensei em avisar Jóia, mas ela foi mais rápida e num movimento rápido arrancou o cajado do anão e girando lançou o pé em direção ao cowboy que voou em cima dos brutamontes!

Queixo Quadrado segura o cowboy enquanto o Moça pula no carro num único impulso. Jóia girou novamente e dessa vez girou baixo e aplicou uma rasteira no momento em que o pé do Moça toca no carro. Jóia pula em minha direção, aterrisa já correndo. Com o cajado numa mão e a arma recém sacada na outra, dispara pelo Calçadão da Central, comigo atrás.

A confusão estava armada, e a avenida que deixávamos pra trás era fonte de gritos, buzinas e muita correria. Queixo Quadrado e Moça, já de pé, despontaram ao longe em nosso encalço. Moça leva a mão para a orelha e fala! Teríamos companhia!

Pegamos a transversal que leva a praça dos Hippies, fiz contato de rádio com o apoio, mas eles não teriam como nos pegar com o trânsito todo travado pela confusão, teríamos de sair do ‘epicentro’. Dimuímos o passo e nos preparamos para uma escaramuça feia. Novato, marinheiro de primeira viagem, já não acreditava que minhas calças manteriam a sorte, mas segui com Jóia pro meio da Feirinha de Artesanato e nos embrenhamos nela tentando aproveitar o máximo de cobertura que as parcas barracas poderiam nos fornecer.

– Toma o teu dedo torto e vê se a gente fez uma confusão a toa ou se valeu a pena – e Jóia me passou o cajadinho do anão líder.

Era um pedaço de madeira, recoberto de papel machê e adornado com detalhes em epoxi, tentanto imitar um cajado ritualístico. Só tentando. Os feirantes comentavam alto a respeito de uma mulher que roubou um dos carros do Beto Carrero e saiu dando tiros pela praça. Escondi o cajado percebi um carro parado no meio da avenida. Era um daqueles modificados, ‘tunados’, brilhava e chamava a atenção, não só pelo colorido, como pelos insistentes roncos do motor, que o pit bull que estava na direção …o cara do restaurante! E a patricinha acaba de descer do carro e entra na praça!

Jóia me agarra pelo braço: – Eles chegaram. Vamos…

– Olá – a patricinha ruiva, agora eu reparei, nos interrompe.

O modelo do XYZ Body Modeler 2000 sai do carro e se coloca atrás da patricinha.

– Olá – estava embasbacado, será que o pity boy  resolveu que capturar os arruaceiros seria legal pra fama dele?

– Me pergunto se o menino que mija na cama tinha dedo torto – continua a patricinha.

Fico completamente sem ação! Mas nem tenho tempo de curtir minha estupidez, Jóia dispara na sequência:

– Não só tinha como ficava apontando para o chocolate. – e tendo dito isso, a ruiva pareceu aliviada e o grandalhão em suas costas começa a falar:

– Assumam o carro, eu cuido dos nosso perseguidores.

Ainda congelado sou jogado no banco de trás do carro por Jóia e a ruivinha assume a direção. Uma explosão se ouve, o grandalhão está com duas submetralhadoras e começa a disparar em direção a um grupo de 3 homens que se protegem por detrás de um carro virado na avenida, a uns 100 metros atrás do nosso. Queixo Quadrado e Moça aparecem no outro lado da avenida. Um banco de praça, passa voando, ruivinha pisa fundo e aquele ronco se transforma num rugido e decolamos por entre balas e estilhaços. Jóia puxa a arma, rangendo os dentes, o grandalhão se joga atrás de uma barraca de brincos de pena, um outro carro ‘tunado’ se interpõe entre o nosso e os atacantes, o banco de praça aterrisa dentro de uma loja no outro lado da avenida, Jóia atira, um palito de cabelo atravessa a janela do carro por onde eu olhava e se crava no encosto do banco. Algo quente escorre pelas minhas pernas e a sorte das minhas calças já era.

Jóia continua a dar ordens para a ruivinha de onde ir, onde virar, a confusão da praça fica pra trás, tiros e explosões vão se distanciando, a voz de Jóia vai se distanciando, e tudo escurece…

O palito de cabelo que atravessou a janela e se cravou no banco, tinha atravessado meu pulmão também.  Minhas calças, por fim, estavam com sorte até no fim, o que escorreu quente entre minhas pernas, era sangue. Demorei meses na recuperação e os movimentos do braço da arma ficaram comprometidos. Não preciso dizer que minha transferência pra agente de campo foi abortada em definitivo, além de ter sido suplantado em termos de raciocínio rápido por uma mercenária!

A garota ruiva era o pacote, e porquê ela era importante eu não sei, não fui autorizado a saber. Só sei que ela está sob proteção e que requisitou que Jóia continuasse a fazer a segurança dela, e ela aceitou! Sinto que Jóia está curtindo isso mais do que o necessário.

Ao invés de estar cuidando de uma ruivinha deliciosa, estou de volta pro ponto inicial e voltei a fazer coisas enfadonhas de nerd. Bem, pelo menos ganhei como companhia, um palito de cabelos e um dedo torto de papel machê.