inspirado em chocolates reais

( Leandro De Maman )


– Quero um chocolate, você tem aí?
– Chocolate? – Perguntou a mulher, de saia e lenço na cabeça, enquanto mechia no freezer cheio de carnes, presuntos, margarinas e queijos. – Que Chocolate?
– Não sei, meio amar..
– Esse aqui?
E jogou uma barra de chocolate na minha mão. Jogou. Chocolate gelado, único, perdido no meio das carnes, presuntos, manteigas e afins. Caiu na minha mão todo quebrado. Partido em infinito pedaços. Uma barra de chocolate ao leite, estropiada. Fiquei antônito. Muito tempo sem chocolate, mas não queria aquele. A minha imaginação desejava um chocolate inteirinho, escolhido após muita indecisão numa imensa prateleira cheia de opções.Vários tipos de chocolate. Reagi lento mas espontâneo:
– Mas está todo quebrado
Uma amiga minha que estava por lá – E você, por acaso, vai comer inteiro??
– INSENSÍVEL – pensei em caixa alta. Como pode ela concordar com isso, com essa partição de meu doce sonho em pedaços, como se meu pequeno desejo burguês fosse se contentar com algo que mais parecia resto da páscoa do ano passado, posto à venda por acaso. Como um chocolate achado no chão e colocado à venda no meio de um freezer cheio de carne. Chocolate da páscoa, pensei lento, enquanto buscava, também lento a validade da doçura:
– Está vencido.
– O que?
– Esse chocolate está vencido.
– Ah, me dá aqui, que vou botar ali do lado.
Vencido, antônito, devolvi o chocolate quebrado, vencido. Vencida ficou minha vontade de comer chocolate naquela terra estranha, com aquela mulher estranha,e aquela amiga que estranhei ao concordar com o doce partido. No outro dia voltei lá, e estava lá, o mesmo chocolate, exposto no meio dos presuntos. Antônito fiquei eu, imaginando o perigo de comprar ali um presunto. Presumo que não volto mais, e que saio agora desse lugar. Saí. Depois me arrependi. Devia era ter feito um escândalo.