Insônia

( Alcyr Spíndola )


Começou tranqüilamente, de forma banal e inocente. O resumo da agência de publicidade descrevia uma cena clichê a ser fotografada para a campanha de lançamento da nova marca de chocolate.

Antes do início da sessão de fotos, ele é apresentado ao menino escolhido pela produtora. É fofinho, 2 aninhos de idade, levemente gordinho (o que transmite a imagem de bem-cuidado e simpático necessário para acalmar preocupações maternais das consumidoras). O melhor de tudo era o dedo, tortinho na medida certa, que atraia o olhar de todos, uma levíssima falha que servia para destacar a perfeição dos olhos e do rosto inteiro e que atraia a todos ainda mais.

Chocolate posicionado, iluminação pronta, é só dar um pedacinho pro menino, pra despertar a tentação, e esperar que ele peça mais e aponte para a barra enquanto olha para a lente, ou mais precisamente para o fotógrafo, que ele sabe que é quem pode lhe dar o chocolate. Depois de horas até conseguir que o pirralho resolva a equação de apontar pra frente mas olhar pra trás, o que é fundamental para obter a cumplicidade do consumidor, finalmente ele consegue tirar as fotos desejadas. E imediatamente a mãe leva o menino embora, sem dar ele o resto do chocolate (tá na hora da dedeira, disse a mãe abobalhada).

Era pra ter terminado ali. O problema começou na revisão das fotos no computador. O olhar do menino estava errado. Ninguém mais da equipe concordava com ele, mas ele achava o olhar e o sorriso do garoto ameaçadores. Não tinham aquele ar levemente travesso, com uma segurança de quem sabe é só sorri pra mamãe que ela dará o chocolate. Tinham, sim, era um tom de exigência de quem escraviza os adultos e sempre é atendido. E no entanto ele sorria. O cliente adorou as fotos.

Após o início da campanha, a coisa piorou. Jornais, revistas, outdoors, as fotos estavam em todos os lugares, sempre exigindo dele o prometido chocolate, sempre com aquele ar que era cada vez mais ameaçador. Agora, nem mais dormindo ele escapava da perseguição. Os seus sonhos se transformaram em pesadelos, ou melhor em um pesadelo, já que o sonho era sempre o mesmo, noite após noite. Não importa como o sonho começava, se era alegre, triste, familiar ou erótico, no final ele sempre abria uma porta ou acendia uma lâmpada e dava de cara com o menino, com o dedo torto, apontando para o chocolate.