Ela veio pela janela do banheiro

( Thalita Coelho )


Uma mulher de cabelos louros quase brancos lavava a louça com entusiasmo assustador, assustador sim, afinal quem diabos limpa a casa com alegria de festa? Resposta: Maníacos por limpeza.

Exatamente isso era a Dona Mary, que há pouco chamávamos de “mulher de cabelos louros quase brancos”, totalmente, completamente, altamente maníaca por limpeza. Era mais prazeroso limpar uma mancha de molho de tomate de uma camisa branca, do que fazer sexo com o marido peludo e parrudo. A quarentona chegava a limpar  farelos de pão que estavam sobre a mesa enquanto os filhos ainda estavam comendo. Lavar a louça era a atividade mais excitante pra D. Mary, ou quem sabe, fosse limpar o banheiro: o cheiro de água sanitária, e o mantra de lavar os azulejos com uma escovinha fina e delicada, deixavam D. Mary arrepiada. (E a intenção não era rimar).

O engraçado era que D. Mary sempre cumpria o ritual de deixar a casa impecável enquanto ouvia Beatles, mais precisamente, o CD Abbey Road. Ela nunca mudava o CD, que ganhou quando era adolescente, e era o único que os filhos não haviam destruído (porque ela escondia em cima do guarda-roupa).

Mas vamos continuar de onde começamos: D. Mary, de cabelos louros quase brancos, lavando a louça. O marido chega em casa, já é hora do jantar, as crianças estão sentadas à mesa, dois meninos de sete anos, gêmeos e uma menina de dois anos, todos muito louros, menos a menina, que tinha claramente puxado os fios vermelhos do pai. D. Mary estava absorta na espuma da louça e em She came in through the bathroom window.

O marido pediu pra que ela desligasse o rádio, com a voz baixa e doce que ele sempre usava. Nem ao menos levantou a cabeça pra dizer isso, continuou lendo seu livro sobre economia e coisas chatas. D. Mary continuou cantando e os filhos continuaram comendo.

O marido arrumou os óculos de aros finos e pela primeira vez desde que havia chegado em casa, olhou pra mulher. Pediu com a voz um pouco alterada (imperceptível) pra que ela desligasse o rádio, disse que queria jantar em paz.

D. Mary rebolava e começava a jogar a espuma da louça pra cima.

A filha de D. Mary começou a chorar. Estava quase tão vermelha quanto seu cabelo, ela esperneava e os meninos começaram a brigar. O marido começou a ficar impaciente. De novo o marido economista se dirigiu à mulher, disse que Clara estava chorando e que era um absurdo que ela não fizesse nada. Ele tinha mania de falar tudo corretamente. Um saco.

E D. Mary lá: She caaaaaaaaaame in throoooough the bathroom wiiiiindow!

A pequena Clara começou a apontar para um pote colorido cheio de chocolates que estava do lado do pai, se observarmos atentamente, o dedo da menina é altamente torto, coisa que herdara da mãe. E a situação era linda: Filhos brigando, a menina apontando com o dedo torto para o chocolate, e o pai, incapaz de fazer qualquer coisa senão chamar a mulher. Ele fechou o livro (sem marcar a página, o que lhe daria dor de cabeça depois) e começou a gritar com a mulher, disse que estava cansado do CD e que iria embora com as crianças.

D. Mary cantou junto com os Beatles o último trecho da música e colocou no escorredor o último talher já reluzindo. Secou as mãos no avental, soltou o cabelo louro quase branco, amarrou-o de novo, tomando cuidado pra que nenhum fio ficasse de fora do coque, pausou o CD, foi até o forno e pegou o frango com batatas que estivera assando, caminhou até o marido com o rosto impassível, deu-lhe um beijo, colocou um pedaço de frango, algumas batatas e o chuchu de cada dia, puxou as orelhas dos gêmeos e deu o chocolate pra Clara.

Todos se calaram por fim, a família e os Beatles.

Thalita Coelho.