.Acordes Humanos.
thais arrias weiller

Olhou no relógio. Já era tarde, precisava ir-se, porém não conseguia se mover daquele banco. Olhava através da tela tantas idéias e motivos que não conseguiria mais distinguir sua mão da do vizinho, tamanha era sua inquietude. Os pixels se tornavam manchas e as manhas se tornavam imagens, quase como numa mágica épica, distintas e saudosas imagens. As letras quase dançavam rente a ele em uma convidativa coreografia odalisca, não podia negar-lhes um segundo e sua atenção.
Tudo acontecia coordenadamente dentro daquela maquina naquela lan house naquele dia até que um desastre de proporções catastróficas aconteceu. Mas José não viu quando tudo aconteceu por que estava de olhos fechados. Fechou-os vagamente, de modo a apreciar melhor os acordes que seriam agora expelidos pelo barato fone de ouvido, acordes quais sempre despertaram em José curiosidade ímpar desde a primeira vez que os ouvira, logo quando nasceu e abriu os olhos, apesar de seu pouco valor audível. Mas agora, com os olhos indiferentemente fechados, tentou concentrar todas suas energias naqueles acordes nostálgicos como se sua vida dependesse deles e que, sem estes, jamais em sua breve existência poderia ele alcançar o patamar que os bravos chamam de felicidade já que o êxito de um homem como ser dependeria apenas e somente de sua capacidade de decifrar a maneira em que se justapõe essas notas e a ordem que as fazem funcionar harmonicamente.
Em sua busca do Nirvana musical ele se alienou completamente do mundo exterior, deixando de lado os carros que passavam na rua, os barulhentos tiros criminosos não tão distantes quanto o desejado mas não perto o bastante para causar danos aparentes, e até o metro, este ultimo capaz de abalar as estruturas do prédio todo quando passava pelo subterrâneo. Nada disso realmente importava agora, não agora que chegava tão perto de compreender a natureza mística perfeita da melodia nada nem ninguém poderia o abster da plenitude consciente da alma. Começava José Da Silva Oliveiras, um ex homem comum, a requerer o manjar dos deuses, entendendo, enfim, a complexidade de cada nota e seu valor na linha. Eram mais de 6 bilhões de notas, todas tentando formar uma harmônica canção mais somente fazendo uns estridentes acordes e então José começou a reorganizar as notas de maneira amistosa, fazendo todas soar magnificamente e calando os barulhos exteriores.
Foi aí que acabou a energia e tudo se foi. As luzes, as imagens, as letras, os acordes e até José, todos foram tragados pela imensa massa de ignorância rente a estes.
.recado ao autor.






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