.Torre de Execução.
suelen ariane trevisan

eu espio pela janela
e vejo que todas as demais janelas do mundo estão fechadas
milhares de vidros escuros e vazios
o meu também é assim e está fechado
há apenas um tênue reflexo do buraco negro dos olhos
que logo some na fumaça quente expirada

uma raiva de anos fracassados - todos todos -
faz a cabea inchar inchar inchar
ela está quase explodindo
e o corpo ainda mole
a raiva duplica
a moleza quadruplica

a corrida antes do salto principal
um passo - a perna bambeia o joelho dobra -
o segundo custa a vir
a segundo custa a passar
o segundo sou eu pois o primeiro já se perdeu de vista
o arremesso - o vidro contra eu -
bam
eu me estilhaço
o vidro não
tá tá tá
meus cacos execultam pequenos arremessos de si
bipartem-se
não
parem parem
eles param

obrigada a viver dentro - fora do mundo -
mas vivendo os medos tantas vezes quanto a revolta dividiu-me
e cada vez que eu for tomada de furor
sofrerei exponencialmente mais do que sofria antes

não há arrependimento
não há volta
.recado ao autor.






.indicar a um amigo.