O Ódio

Olhos vermelhos. Com um volúpio olhar ignóbil. Assim era Ades. Roupas pretas, sempre, mais se engana quem acha que é por ser tímida ou por ser triste. Seu amor incondicional por essa negra coloração começou desde que era pequena, desde o tempo em que Ágata brincava de boneca, feliz e intocada pelos sentimentos vingativos de Ades, que sempre ficava quieta em seu banco, admirando impassivelmente a calorosa alegria de sua companheira docente com irrefutável sentimento de repulsa. Desde daquela época, Ades aprendeu a mostrar para o mundo o seu luto. O luto por sua alma.

No topo de seu salto agulha, ostentava todas das dádivas físicas de seus tenros 16 anos. Com roupas justas e saias rasgadas tentava mostrar sua rebeldia e eloqüência Apesar de aquilo ter lhe causando muita dor, continuava a inflar com seu orgulho. Não importava a humilhação, a dor, o sofrimento atuais... O importante era que ela se sentia superior. Sentia-se superior no meio daquele lixo, daquela gentalha, mesmo que isso significasse sua prisão. Não se importava que estivesse naquela situação degradante, pois quando liberta, esculacharia tudo o que reprimira todo esse tempo. E um dia, e esse dia havia de chegar, conseguiria se libertar para sempre! E Agata... Agata havia de ver!

E intocável no auge de seus sapatos negros, marchava em meio a multidão ignorante. Homens, mulheres, não importava o que viesse em sua frente, apenas tinha que continuar a andar por toda aquela insuportável ralé que impregnava o ar com um odor terrível. Precisava de ar, precisava do lúgubre chamar da noite e da soberana Lua, que brilhava no céu em algum lugar e ela precisava achar. A Lua era a saída. Majestosa em seu reinado continuava o trote, esperando um momento em que agata estivesse frágil para começar a infernal luta.

Ela sabia que esse momento não iria demorar... Ela sentia! O ar impregnado daquele terrível odor começava a ficar menos e menos insuportável. A alegria das pessoas a sua volta davam os primeiros indícios de fraqueza, de que o caos estava próximo. A hora perfeita se aproximava enquanto Ades engrandecia-se em seu pretensioso sorriso alvo. Vagueou mais um pouco entre os pobres e idiotas que estava a sua volta. Estaria livre em breve, livre para respirar o maravilhoso ar da noite, sentir em sua face o vento trazendo as boas novas sobre a dor de Ágata... Aquela peste pagaria!

Então o tão esperado sinal penetrou no recinto em forma de um tenebroso grito de dor. Não podia estar enganada, era esse o momento! Rapidamente, ela atravessa uma janela de vidro como se fosse apenas uma leve cortina de água. Ao seu redor, estilhaços de vidro rodopiam ao som de uma estranha dança. Os pequenos pedaços translúcidos aos pouco vão adquirindo cor mais escura e começam a se suster no ar. Ades caminha calmamente entre as chagas, e com um estalo de dedos desperta as feras, que agora já totalmente enegrecidas, voam em frenesi para várias direções. Uma vermelha gota de sangue escorre pelo pescoço de Ades. Ela limpa e sorri. Enquanto se afasta do castelo que durante tanto tempo lhe serviu de prisão não repara em um líquido avermelhado arranhando a parede em sua descida lenta e rala, porém foi tomada pela euforia quando percebeu o que tinha feito e o que isso causaria a Ágata, que agora sangrava a mesma dor das paredes. Mas a Lua continuou estática no céu.



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