Acaso ou Ocaso

     Disseram-me que hoje o dia está bonito.
     O sol exalta a terra e sobrepuja as nuvens,
     Nuvens formam animais e mulheres nuas,
     O ar possui um tom entusiástico e alucinógeno.
     A relva está macia e acolhedora,
     Folhas se maquiam com a luz solar
     Enquanto as árvores dançam ao som do vento.
     Pessoas passeiam, sorriem, conversam sobre o presente,
     Sorrisos refletem sorrisos e momentos formam sorrisos,
     Mãos certas se encontram e seguram-se fortemente.
     Uma espécie de magia faz todos voltarem infância,
     Sentem-se imortais,
     O futuro límpido e maravilhoso como um diamante.
     Folhas brilham.
     Sorrisos brilham.
     Almas brilham!

     Vejo tudo isso, mas não sinto.
     O Sol está triste e produz apenas sombras,
     Nuvens formam algodões alados e imagens disformes,
     O ar sufocante, congela a espinha.
     A relva dificulta o andar, pinicante,
     Folhas forram o solo misturadas ao lixo de transeuntes,
     Um vento frio e seco corta as árvores esquálidas.
     Pessoas vagam de cabeas baixas, guardam suas mgoas,
     Olhares tristes cruzam-se ao acaso, desviam-se,
     Mão certas encontram-se, mas no conseguem ou não querem segurar-se.
     Uma estranha magia negra exuma todos os tormentos,
     Mais do que nunca, sinto-me mortal,
     O futuro fosco e incerto como um pántano.
     Folhas tristes.
     Olhos tristes.
     Almas tristes...

     Eu vejo o dia.
     Eu sinto a noite.



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