Sem título
Verônica Lemus

Foi então, na hora escura e fria do dia, passeando pelas ruas moderadamente iluminadas e apinhadas de gente, todas distraídas em seus pensamentos e compromissos, que me encontrei com quem viria a ser minha cúmplice de todos os meus pecados e blasfêmias irritantemente mortais; de todos os meus enganos tolos e fúteis a respeito dos meus segredos.
Aquela garota, cujos sonhos e vontades reverberavam toda sua fúria e insatisfações de uma vida limitada e desacreditada.
Por quê não a evitei como evitei todos aqueles que se aproximaram de mim?
Não sei.
Há algo nela que não posso negar; suas atitudes são como modelos de um novo comportamento mortal, um comportamento insatisfeito e pressuroso, que durante séculos se manteve coibido em seus corações maltratados de tanta ilusão.

Encantada com tanta vivacidade em um ser tão frágil, me mantive à espreita, apenas sondando seus pensamentos...
"Ah, só espero que Mattias não tenha se esquecido de que eu voltaria para o jantar!"
Mattias... Quem é Mattias?
Essa era uma dúvida que eu logo resolveria.

Ela estava sozinha, andando meio apressada, meio ansiosa por sobre a calçada de concreto desviando das poças d'água remanescentes da última chuva.
Penetrando novamente em seus pensamentos, descobri seu nome... Juliana.
Oh, como soava tão docemente.
Enquanto observava, notei que seus cabelos eram vermelhos, com algumas mechas mais vermelhas que o restante.
Mas que vermelho fascinante... Vermelho sangue!
Como eu adoro essa cor!
E com o vento constante e gelado tocando em seus cabelos, meus olhos imortais podiam ver o fogo presente em sua alma inquieta e sensível tornando-se capaz de atravessar a barreira carnal e se fazer vivo em forma de cabelo.
Eu podia sentir aquele fogo, ele esquentava minha face sem me queimar. Era como a lã no inverno, ou como o doce calor da lareira protegendo-nos de todo o sofrimento.

Suas sobrancelhas finas e seus olhos negros davam ao seu rosto um tom de doçura. Os cílios curvados eram como convites para o deleite.
Eu não podia suportar.
O rosto redondo, de queixo delicado, realçava suas maçãs do rosto tão suavemente rosadas.
Mas nada se comparava ao seu sorriso.
Quando sorri, todos os problemas, toda preocupação, medo, raiva se desvanecia, e tudo isso se transformava em sentimentos que aquele sorriso desconhecia. A pureza e sinceridade podiam ser sentidas até mesmo pelo ser mais apático que se deparasse com ela.
Como é bom vê-la sorrir... (mas nem queira saber como é vê-la com raiva).
Mas isso não é assunto para este momento, mais tarde... Talvez.

Juliana se aproximava de seu apartamento.
Era um prédio antigo, de 3 andares, mas ainda bem conservado. A pintura estava um pouco gasta, porém, ainda era possível avistar sua cor amarelo-claro. E as janelas eram grandes, com venezianas de madeira envernizadas. A varanda das janelas laterais ainda tinha suas balaustradas originais. Quanto à porta de entrada, ela era grande, de madeira e com detalhes esculpidos na madeira.
Quando Juliana olhou para a varanda de sua janela, acenou para o homem que ali estava à sua espera. Deduzi, com certa relutância, que aquele era Mattias, seu melhor amigo.

Assim que ele se voltou para dentro do apartamento, decidi aparecer para ela.
Apenas uma visão.
Uma ilusão de imortalidade. A luz na escuridão.
Porque decidi ser vista? Não sei ao certo, apenas pareceu-me que, naquele momento, a única coisa razoável a se fazer era revelar-me para ela.
Mal havia arrematado meu pensamento que insistia em explicações, me dei conta de seu semblante sobressaltado. A magia estava começando. Aos poucos, deixei que ela notasse minha pele extremamente branca que refletia toda a luz que tocasse em mim.
Ela estava temerosa, mas logo a razão tomou conta de sua mente.
Em seu olhar, decifrei o que se passava em seu interior.
Seu instinto dizia "corra!".
Sua alma gritava "fique, e espere".

Impossível descrever com perfeição o que eu sentia nesses momentos de reconhecimento. Era o mesmo que nascer de novo. Era como se todo o pesar desta minha morte, como se todos esses anos de agonia e poucas alegrias denotassem o real vínculo entre a minha morte humana e o perpetuamento do meu espírito secular.

Aos poucos seu medo convertia-se em contemplação. Só um ser sobrenatural sabe como é sentir o peso dos olhares fascinados e instigados dos mortais, provocando um breve frenesi em nós. Ainda mais para mim, uma vampira, como direi... Segura de si? Segura de seus encantos? Sim, eu mesma!

E era essa mesma contemplação que escapava de seu olhar direto para o meu coração.
Era gelado, seco e desconfiado, mas não o suficiente para me deixar consternada.
Eu senti que se ficasse ali por mais alguns minutos eu teria cedido ao cheiro doce e inebriante de seu sangue.
Quase podia ver as mãos diáfanas do desejo, quase podia senti-las tocando em minhas faces, entrando em minhas narinas, indo parar nos meus lábios.
Senti o gosto do sangue. Quente, arrebatador e desafiando-me para uma luta que eu tinha a certeza de que venceria. A luta que decidiria qual o caminho da encruzilhada fatal esta pobre alma desajeitada tomaria.
O êxtase subiu como um arrepio em minha nuca; e me dei conta do perigo: eu ainda não havia me alimentado. Pois, na hora em que escolhia minha vítima, fui pega de surpresa pela visão de Juliana.
Tive que ser mais forte, enquanto a via ali, parada, como se soubesse o que eu realmente era.
Ela iria se aproximar de mim, já estava vindo em minha direção...
Em sua mente eu ouvia apenas sussurros, e em seu coração somente um desejo incontrolável que não era realmente seu. Eu estava provocando todo esse desejo nela. Sua mente vazia não era capaz de racionar nem de reagir ao entorpecimento. Ela estava sobre o efeito do meu olhar.
Não, não! Por favor, não, criança. Fique onde está.
Leve-me daqui!
Não, não era ela quem desejava partir comigo, eu estava controlando sua mente! Eu, com meu temperamento egoísta, queria poder levar sua alma frágil para o lugar onde somente a noite seria sua conivente.
Chegou a minha hora. Eu tinha que partir. Se não partisse agora, o pior aconteceria.
Eu não posso me alimentar nela. Não agora.