Outros lados da Moeda Capítulo 1 parte 2

Maurício Arus

A velha cartomante sabe o que faz, tem talento, inspiração... Após profunda concentração, ela abre seus olhos para a verdade que a rodeia. Vê as possibilidades que o cenário a sua frente proporciona, entende o que se passa naquele lugar... Abre os olhos para o que é mostrado, e não para o que quer se ver. Pode observar seu convidado (a) aproximar-se com delicadeza e firmeza, dando passos em direção ao rapaz. Ela não hesita, esperava essa chegada. Ele (a) para ao lado do visionário e apenas observa, enquanto o mesmo se concentra nas cartas que são lentamente postas e explicadas uma a uma, revelando o que ele parece já saber, mas que não transparece no momento.

- Você vai morrer. - diz a senhora depois de observar a carta da morte de cabeça para baixo sendo lentamente revelada em cima da mesa. Depois de largar a carta, ela espera a reação do rapaz.

- Não significa isso. A morte de cabeça para baixo? Não quer dizer outra coisa? - ele a induz a uma resposta mais objetiva.

- Quer dizer isso mesmo, mas isso não tem valia nenhuma. Todos morreremos.

- Eu sei.

- Nós sabemos.

A conversa parece fluir como se ambos estivessem curiosos sobre o que aconteceria depois, na verdade, ambos sabem mais ou menos que o que está para acontecer.

- A morte virá lhe buscar. - diz ela - Pois tu não a servirás e ela sabe disso. Se tu viveres por demais acabarás por trai-la. - levanta-se rapidamente.

O rapaz saca de dentro de seu bolso uma pistola automática com silenciador mirando no terceiro olho da vidente.

Esta mulher que por décadas foi sua mestra e protetora, e há décadas zela pelo futuro do rapaz, agora esta caída no chão sem mais poder apreciar o gosto de saber o que estaria esperando por ela no momento seguinte.

Do outro lado do véu da verdade, o espírito da cartomante espera anestesiado pela viajem de volta ao céu ou ao inferno. Seus anjos da guarda se aproximam.

- Levarei a sua alma para um local seguro, onde estarás livre dos olhos do seu Deus e seu Anjo Traidor. - diz a morte, revelando seu lado bem humorado, mas com seriedade em suas palavras.

- Mas como? Você não pode! O garoto, aquele moleque! Ele já sabia? - pergunta indignada e sem saber o que havia dado errado.

- É por isso que eu o escolhi.

Antes mesmo de sussurrar suas ultimas palavras, a morte arranca-lhe a essência espiritual que a mantinha "viva" mandando ela para um cárcere obscuro cuja jurisdição pertencia somente a quem havia dado voz de prisão. Nesse caso, a morte.

Na realidade mundana, o garoto espera menos de milésimos de segundos antes de presenciar a materialização de um espírito. E este diz, calmamente:

- Chama-me de Andrew.

Espantado, o visionário paralisasse ao perceber que não tem o direito de saber os próximos passos que aquele estranho iria dar. Pergunta-se por que neste mundo, a morte personificada teria mais poderes do que ele e por que ela estaria aqui.

Nota que perdeu seu dom, talvez por ter sacrificado aquela que havia lhe dado tais oportunidades.

- Não se desespere, cuidaremos disso assim que eu me livrar dos meus encostos. - responde a morte mais uma vez, demonstrando seu bom senso de humor... Admirava os humanos e as características que os tornavam tais, por isso sorriu.

Maurício Arus

18 anos (leonino de 19/08/86), nascido em Porto Alegre com grande orgulho e saudade. Atualmente escritor apenas por diversão, mas pensa em escrever um livro, o qual está tentando dar vida aqui no projeto do MeloDrama. Fora os outros textos que ele tem guardado em casa de épocas tempestuosas, ele possui todas as anotações que fez na escola desde a 4ª série. Lendo Agora: "Obras-primas de cada autor - Coletanea com mais de 300 livros, incluindo uma série ouro de obras muito peculiares. De John Milton a Charles Baudeleire (incluindo o seu favorito Goethe)."