Transparente transmutação

Francine Blasius

Ela apenas queria entender o respirar das plantas: toda aquela fotossíntese. E as explicações que lhe davam no colégio não mais a satisfaziam. Se plantas poderiam, quem mais não poderia? Afinal, viver é o desenrolar de vários encontros, gerados pelo desencontro de idéias, pessoas, filos, espécies. A mesma coisa com borboletas, e suas metamorfoses... desde que descobriu esse fato tão curioso, quis aprender a fazer metamorfose. A voar para depois morrer.

O mundo já não parecia tão grande.
Ou seria ela tão pequena para enxergar algum tipo de mundo?
Não importa o que pensem, não importa. Nada importava mais do que a libertação - e não havia luz no meio de um mar de dúvidas.

Um bilhete.

"A tranquilidade de viver não me deixa viver, pois ser tranqüilo com o que é agitado simplesmente não condiz com a conclusão do percurso da agitação. A água pode ser agitada, mas precisa do vento. E eu não tenho vento. Não tenho vento. Não tenho vento. E por não tê-lo, fico imaginando o que eu seria, se eu fosse, com ele. E desde quando o vento chama-se vento? Desde quando mentem para nós? Desde quando? Desde quando? Desde quando?
Um sonho só é sonho, se é também sono.
Uma pessoa só é pessoa, se é também si mesma.
Eu só sou eu, por ser. O quê, não sei."

E então, conseguiu um loft nas nuvens.
Seu maior prazer num dia chuvoso é observar a correria cotidiana em meio aos guarda-chuvas.
Sua maior tortura num dia chuvoso é sentir o interminável medo de descer.
Aliás, esse seu medo é (e serve) para sempre, para qualquer previsão de tempo.

E ainda assim, não entende o que precisava. Não sente o que precisava.
Vive o que queria.
Mas o certo não anda junto com a coerência.
Muito menos, com a vontade.

Francine Blasius