Um jogo de você

Fernando da Silva Trevisan

Páro para olhar e você está ali, claro, como não estaria? É um manequim de vitrine; carne exposta no açougue. Mas com que requinte! Perfumada, enfeitada, brincos, roupas e unhas. Não se ofenda: noventa porcento da beleza feminina sai com água e sabão, minha querida. E os dez porcento restantes, a gente só vê quando você está nua.

Ah, ressentido, é isso que você deve pensar. Até ouço seus gritos naquele dia, acusando-me de ser enrustido, de não gostar mesmo da coisa. Quanta injustiça! Lembrei na hora de que era você quem pedia para parar, na maioria das vezes: mas que adiantava lembrar-lhe disso? Seria apenas material para sua revolta meia-boca, fictícia. Não estava nervosa de verdade, como em geral não gozava de verdade. Vaca frígida!

Mas quando eu saí de moda, rapidinho foi procurar outro. O novo ícone pop, a nova promessa da arte, do design; eu era passado, minhas exposições, uma mentira. Tudo em mim agora era falso e "o tempo foi bom mas acabou, estou feliz agora com ele". Tão feliz que me ligou bêbada, anteontem, chorando que sentia falta do meu carinho, de conversar comigo, de ouvir minha voz logo pela manhã.

Notei que me viu, notei que se abalou. Ah, sim, minha companhia? Apenas mais um manequim; apenas mais carne requintada. Depois de você, meu bem, desisti de acreditar em mulheres de verdade: são máscaras que cobrem medo, prepotência, arrogância e luxúria. Invólucros para o nada, etiquetas e rótulos que encerram em si mesmos os produtos.

Sei que vai me procurar hoje a noite com propostas irrecusáveis de amor e traição. Dentro de seu jogo, deve fazer sentido, mas você joga e aposta a si mesma em seu jogo: o que vai acontecer se perder? Hoje deito a cabeça em meu travesseiro e não tenho você para contar meus dramas, sonhos e viagens. Mais uma que se foi e agora desisti de procurar, é minha arte a resposta: para que insistir em pedaços de carne ambulantes e seus jogos de você?

Fernando da Silva Trevisan

Publica esporadicamente no 5v (vvvvv.blogspot.com)