O som de garrafas vazias se chocando contra o fundo da lata de lixo, mais uma vez cumpria o papel de despertador para o jovem Thomas Greene. Ele acordava praticamente todos os dias com este barulho perto da janela de seu quarto, sabia que se espiasse entre as cortinas encontraria seu pai Willian ou seu irmão mais velho, George.
O pequeno garoto ruivo de dez anos de idade, rosto coberto de sardas e cabelos cacheados, sentou na cama e olhou para os números do velho relógio, presente de uma tia irlandesa, esperando que começasse a tocar... Piiii... Piiii... Piiii... Desligou o aparelho com um leve toque de seus pequenos dedos sardentos e comentou:
___ Até hoje eu não sei por que programo esse negócio para me despertar... Abriu a boca para um longo bocejo e conclui a frase: ___ Os únicos dias em que não ouço a velha sinfonia da lixeira é no natal e no dia de ação de graças...
Levantou-se da cama, calçou os chinelos e foi em direção da janela, após abri-la e colocar a cabeça para fora constatou que seu irmão é que fora encarregado de limpar o bar da família, o Saint Patrick. Ao ver que o pequeno Thomas o observava, seu irmão e disse:
___ Bom dia Tom. Pelo que estou vendo você esqueceu de lavar o rosto para tirar as remelas...
___ Bom dia senhor olhos de águia... Disse o garoto sorrindo: __ Mas eu prefiro as minhas remelas, do que começar o dia fedendo a fumaça de cigarro... Voltou-se para dentro do quarto e foi em direção ao banheiro para lavar o rosto e escovar os dentes.
George tinha dezoito anos, era um adolescente alto e magro, cabelos pretos e curtos, olhos castanhos, usava um óculos de armação fina, devido a miopia. Estava vestido com as roupas do trabalho: calça verde musgo, camisa branca de mangas longas e um avental verde musgo, que tinha bordado o nome do estabelecimento em dourado.
O bar ficava no andar de cima do lugar onde moravam, metade sobre a loja de penhores do senhor Robert Duffy, e a outra metade sobre a residência dos Greene. Pelo que os garotos sabiam seu avô Martin, quando veio da Irlanda em 1931, tinha apenas dinheiro e garrafas de whisky na bagagem, aproveitou a oportunidade para abrir um negócio e comprou este lugar. Também escutaram uma história que ele havia se dado mal em uma aposta, e essas foram às únicas coisas que conseguiu reunir no velho mundo antes de se jogar dentro de um navio.
Tom estava terminado de vestir a camisa do colégio e ao entrar na cozinha, encontrou seu irmão colocando a chaleira no fogo para ferver a água do café. Olhou para mesa e viu que ainda sobrara metade da torta de ameixas que sua mãe preparada antes de viajar. Ela era professora universitária, e passava grande parte do ano indo a palestras, seminários, simpósios e todos os encontros acadêmicos e científicos que se possa imaginar. Se ajeitou na cadeira, pegou a faca que estava na forma da torta e cortou uma grande fatia.
___ Deixe um pouco para mim! Exclamou George, olhando para o garoto que acabara de encher a boca após uma grande mordida.
___ Como foram às apostas ontem George? Todo dia vinte e três aqueles velhos da associação de advogados aparecem por aqui e fazem apostas esquisitas durante as partidas de pôquer.
___ Ontem não foi nada de mais, apostaram apenas caixas de charuto cubano, e não amantes e sentenças como no mês passado... Eu acho que alguém andou dando com a língua nos dentes... Desligou o fogo e começou a passar o café.
___ Se nos não fossemos tão azarados poderíamos participar de uma partida ou outra. Mas é só a gente apostar alguma coisa que dá tudo errado... Eu estou começando a acreditar nas histórias que o vovô conta.
___ Tom você sabe que a mamãe diz que tudo não passa de uma grande besteira. Apesar de eu ter provado várias vezes que o velho Martin estava certo. Colocou o café na garrafa térmica e levou para mesa, e retornou a falar: ___ Eu já joguei de tudo, xadrez, damas, blackjack, bridge, pôquer, mah-jong, gamão, dados, sinuca, bolinhas de gude... Quando não aposto, eu até venço, mas se apostar, não importa o que seja, a maldição dos Greene ataca novamente.
Ajeitou os óculos e colocou café nas canecas que seu irmão havia colocado a sua frente, ambas com duas colheradas de açúcar.
___ O vovô diz que um antepassado do nosso clã, chamado Ian... E você sabe como ele adora contar histórias de nossos parentes irlandeses, ganhou uma harpa em uma aposta com um cigano. Mas como era um jovem tolo, trapaceou durante o jogo, e ainda por cima vendeu o belo artefato por algumas moedas de cobre. Dizem que a trapaça foi descoberta alguns dias depois, pois ele tentou usar o mesmo truque em um vilarejo perto de Cork. Tom parou de falar para tomar um pouco de café, dando a deixa para que seu irmão terminasse de lembrar a fonte de sua má sorte nos jogos.
___ E os ciganos descobriram através de alguns comerciantes que haviam sido enganados pelo jovem irlandês... Resultando e um encantamento que não deixaria que Ian e todos os seus descendentes ganhassem uma aposta, mesmo que não houvesse intenção de se trapacear. E caso houvesse a tentativa algo de ruim aconteceria...
Tom de o ultimo gole em sua caneca de café e concluiu olhando para o pedaço de torta em seu prato:
___ Agora eu sei por quê não moramos na Irlanda...
Antonio José de Mello
Publicitário e Assessor de Comunicação; Fã e colecionador de histórias
em quadrinhos, (mangás e comics); Fã de animação, principalmente
a japonesa (animês); Desenha, ou pelo menos tenta; Adora cozinhar;
Joga e mestra RPG (Role-Play Game); Ama muito a Cissa-chan e sua
família; Etc.
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