A música Silenciosa
Parte II de III

Rodrigo Augusto

Meses se passaram, o pequeno vilarejo fora reconstruído com árduo esforço, poucos foram as pessoas que sobreviveram aquela noite ao qual insiste em ser lembrada nas noites estreladas, Grëceise ainda pode ser vista cuidando de sua pequena horta ao fundo de sua casa, não foram poucas as vezes que ela foi levada para Alma uma humana que cuidava dos feridos do vilarejo. A elfa por varias vezes já tentara se matar, mas era sempre impedida pelo o que carregava no seu ventre... Ela estava grávida, e tinha esperanças que a criança seria de seu amado. Que os deuses em troca de seu marido que morrera, devolvessem ao menos um herdeiro.

Era um dia chuvoso, os seus negros com nuvens densas e negras cobriam o céu daquela manhã. Grëceise tinha se afastado do vilarejo, fora colher ervas para dores que sentia em seu ventre, podia sentir as contrações cada vez mais fortes, ela andava com dificuldade se sentindo pesada e desajeitada, olhou para o céus fez preces, seguiu com muita dificuldade para a mata de maneira a se proteger um pouco mais da chuva. Escorou-se numa árvore e se sentou lentamente, ela estava respirando ofegante, as dores se tornavam insuportáveis e as contrações cada vez mais fortes.

Chovia...

Ao longe um homem corria tentando se esconder da chuva, seus rosto não podia ser identificado pois usava um grande chapéu e seus cabelos molhados jogado ao rosto, estava vestido uma cota de malha elfica bem detalhada, carregava uma pequena mochila e um violão embrulhado em panos para não se estragar. Ele levantava a mão para assim limpar os olhos e tentar encontrar um caminho que o conduzisse para um abrigo quando sua busca foi interrompida pelo choro de uma criança.

Grëceise não agüentava mais, ela mordia seus próprios lábios se contorcendo de dor, sozinha ela se encontrava naquela floresta sem ninguém para ajudá-la, mas não se deixou abater e com uma bravura sobre humana, com um instinto sobrenatural que só um animal talvez tenha ela sozinha concebe a luz a uma bela criança, seus olhos enchem-se de lágrimas, aos poucos começara a ser tomada por sentimentos que nunca sentira antes.

O olhar daquela bela elfa aos poucos vai mudando se tornando frio, a vingança começava a encher o seu peito, aos poucos começou a ficar cega, estéril e desprezível pois tinha dado a luz a uma meio-elfa. Grëceise é tomada pela loucura, ela olha para sua roupa manchada de sangue e olha para criança em seus braços, sua mente é tomada por imagens que por meses a assombrava... A morte de seu esposo... A noite que fora violentada incessantemente... Ela deita a criança no solo molhado pela chuva levando a mão a sua adaga. Fita mais uma vez para a pequena meio-elfa e desfere um golpe no peito da mesma fazendo um grande corte que se iniciava na altura de seio esquerdo se estendendo bem próximo da virilha. A criança começa a chorar incessantemente quebrando o transe que Grëceise se encontrava. O que ela havia se tornado. Um animal, não nem um animal faria isto com seu própria filho... Um mostro! Grëceise leva as mão ao rosto chorando muito, ela se levanta e sai correndo por entre a floresta deixando pra traz a inocente criança deitada numa poça de sangue.

A Cada passo que o homem dava floresta adentro podia escutar o choro cada vez mais alto d criança, não demorou muito para que ele pudesse ver uma cena que nunca iria esquecer. A poucos metros de si uma criança deita ao chão em prantos, era muito pequena, um recém nascido, e tinha muito sangue em cima de si, os cabelos ainda ralinho mas de um tom tão vermelho, a pele pálida como a escama de um dragão branco. Ele correu naquela direção e tomou a criança em suas braços, ela estava com um grande ferimento no peito. Ele começa a cantar e com as preces de sua melodia o ferimento foi se fechando, mas não por completo, curiosamente o peito daquela criança ainda ficou marcado pelo resto de sua vida, com uma cicatriz que marcava o ressentimento que sua mãe tinha por ela.

 

***

 

Anos se sucederam e a criança cresceu se tornando numa bela mulher, altiva de presença imponente e olhar austero. Tinha longos cabelos rubros que passavam pouco abaixo de sua fina cintura, tinha seios pequenos, roliços e firmes, ainda que infantis o que denunciava a sua pouca idade, passos que não ressoavam. Seus olhos eram verdes, claros, que junto com seu rosto delicadas davam ar tenro a menina. Seus lábios eram bem definidos tendo uma pele branca como a neve, macia e delicada como a pétala das rosas. Ela usava roupas simples, uma saia de couro justo, pouco acima dos joelhos lisos, e em contraposto a isso, calçava coturnos de couro bastante femininos, sendo que o cadarço de couro os enlaçava até a altura de suas coxas que eram firmes e torneadas. Trajava também uma blusa com tons puxados ao couro de mangas curtas. No pescoço carregava um tipo de chalé feito do mesmo material de sua blusa ao qual lhe dava um charme único. Sua cintura era fina e formosa em conjunto das ancas largas acompanhada de seu bumbum volumoso.

O homem ao qual ela chamava de pai se chamava Kasthor Troy, belo bardo que anda de cidade a cidade cantando suas histórias em melodias de suas façanhas e feitos, ela sabia que ele não era seu verdadeiro pai, sabia de todo seu passado, seu e de sua família, mas não sentia ódio em seu peito, foi um humano que condenou sua família, mas também foi um humano que salvou a sua vida.

Fazia poucos dias que eles tinham chegado a grande cidade de Águas Profundas, naquela época uma cidade próspera e de padrões gigantescos para uma cidade medieval, se hospedaram numa estalagem de nome O Dragão de Escamas Douradas que tinha um movimento considerável, a noite Kasthor fazia suas apresentações arrecadando assim dinheiro para passar as noite, se alimentar e vestir a ele e sua filha. O bardo tinha como objetivo passar seus conhecimentos para sua filhas, mas esta não tinha o dom necessário ou o interesse devido, já que preferia manejar uma arma a pegar em um instrumento musical.

Na segunda noite que Kasthor Troy fazia sua apresentação algo de estranho começava a se formar naquela cidade, os céus estavam tomados por nuvens escuras e clarões de luzes cortavam o mesmo sem piedade. Não demorou muito para as ruas serem tomadas pelo pânico, a cidade estava sendo atacada por criaturas desconhecidas, homens que na noite passada eram pacíficos moradores hoje foram corrompidos por algum mal, tornando-os em demônios sem alma que matam sem piedade.

A estalagem logo caio a favor do caos, mesas foram reviradas e o bardo só conseguia pensar em proteger sua pequena filha.

"Tifa!!! Fique perto de mim, eu lhe protegerei". Dizia o bardo para pequena meio elfa, quando a explosão das portas da estalagem abafou sua voz, aos poucos a figura de uma grande criatura foi adentrando a estalagem, devia medir quase dois metros de altura, a pele era escura e tinha um cheiro que embrulhava o estomago, cabelos compridos e negros como carvão, trazia no rosto carrancudo um sorriso aterrador ao qual podia-se ver os dentes pontiagudos. Ele era forte e tinha braços bem torneados, não usava armadura, apenas alguns trapos como roupa, mas carregava um grande martelo de batalha na sua mão direita, com se esse não pesasse mais que algumas gramas. Os guerreiros que se encontravam na estalagem atacaram a criatura, mas foi em vão com poucos golpes estes já estavam caídos ao chão, Kasthor empurrou Tifa para traz da mesa do dono da estalagem não percebendo que a mesma batera a cabeça e caíra desacordada, empunhou seu violão e começou a cantar, como que por encanto o guerreio não mais se movia, ficou paralisado como se estivesse num tipo de transe. O bardo guardou lentamente seu vilão não deixando de cantar para não quebrar o encanto, sacou sua espada e andou em direção do brutamontes a sua frente, Kasthor levantou sua espada e colocou-a no pescoço do mesmo e quando estava prestes a desferir o golpe percebeu que o gigante a sua frente o enganara, não estava realmente em transe, estava sim fingindo, deixando que o bardo baixasse sua guarda e entrasse no campo de ação de seu martelo.

Ele ergueu seu martelo rapidamente e o acertou no peito fazendo com que o bardo fosse jogado alguns metros atrás, logo sua roupa fora manchada pelo sangue que jorrava de seu peito, o ferimento se estendia por seu corpo e suas mãos começavam fraquejar, mas ele não podia deixar que nada acontecesse a sua filha, não podia deixar o passado tomar conta do presente. Kasthor respirou fundo, encheu seus pulmões de ar. O Homem a sua frente gargalhava e novamente ergueu seu martelo e preparou para acertar o bardo.

Kasthor Troy estava quase inconsciente. A pancada fora muito forte e uma costela se partira durante a queda. Ele viu o martelo no ar, mas não tinha forças para esquiva. E não tinha condições para conjurar uma magia. Haverá falhado e teve como ultima visão a taverna que se encontrava em destroços e a lembrança de sua amada filha que nunca mais poderá ver.

Tifa abriu os olhos com dificuldades. A cabeça doía muito. Durante alguns instantes não pôde ver absolutamente nada. A escuridão preenchia cada canto do aposento, mas a luz dos lampiões iluminava um espaço ou outro. Seus olhos iam se acostumando com a penumbra.

De imediato perceber que ainda permanecia na estalagem, quando percebeu que algo estava terrivelmente errado. Ainda não podia ver muito, mas pela silhueta das coisas da estalagem podia perceber que tudo estava fora de seu lugar. Algo muito grave haverá acontecido.

Tifa fechou os olhos esperando que a dor de cabeça passasse. Assim que a dor fosse embora tinha certeza que sua visão voltaria ao normal. Ao abrir os olhos novamente desejou te-los mantido fechados.

O que uma vez foi a taverna Dragão de Escamas Douradas agora não passava de um monte de escombros. Cadáveres mutilados se espalhavam por todo o estabelecimento como uma decoração macabra. Mas o que realmente abalou a pobre meio-elfa foi a figura de seu tão amado pai caído, encontrava-se sem metade do rosto, provavelmente arrancado pelos dentes afiados de alguma criatura insana. Poucos metros a frente de costas ela encontrara a criatura que fez tamanha ato. Tifa nunca sentiu os sentimentos que a dominara, trancou sua respiração e passou a se mover silenciosamente em direção a criatura, levou a mão em sua cintura tirando uma pequena adaga. Um passo... mais outro passo, logo se encontrava a poucos centímetros daquela criatura, sentia nojo, raiva, ódio, um misto de sentimentos e dor consumia a sua alma quando de um salto certeiro agarrou-se no pescoço do mesmo desferindo um golpe fatal, ela enterrava sua pequena adaga no pescoço da criatura fazendo um corte que iniciava-se numa extremidade a outra, o mesmo cambaleou um pouco e caiu ao inerte ao chão.

Tifa se sentia vingada, e seus olhos logos foram tomados por lágrimas, ela virou-se em direção ao corpo de seu pai, caiu ao seu peito chorando e fazendo um juramento que iria ser forte, que sua menina se transformaria numa grande mulher, e que o nome de seu pai nunca iria ser esquecido. Ela levou a adaga em direção aos seus cabelos cortando-os na altura do ombro, pegou o chapéu ainda sujo de sangue de seu pai, enxugou suas lágrimas e partiu sem ao menos olhar para trás.