Estava com as pernas cruzadas esticadas sobre a mesa,
os saltos altos a arranhar levemente a superfície de
vidro. Seus olhos eram claros e fitavam-no com um ar
de deboche quase vulgar. Os lábios entreabertos,
irônicos, cobertos de um batom vermelho como o sangue.
A saia, curta, marcava de leve suas coxas, cobertas
essas por uma meia calça fininha. Ela sorriu.
___Diga o que veio dizer.
Ele estava encolhido a um canto. Abraçava as próprias
pernas e o rosto estava rubro de tanto que havia
chorado. Estava com cara de quem não dormia a semanas.
Os cabelos desgrenhados e volumosos, os olhos úmidos,
a boca trêmula. Ele parecia não conseguir fitá-la, ao
passo que esta, olhava-o fixamente.
___Eu...
___Você não muda garoto. nem nunca vai mudar...
Ela retira um cigarro de uma caixinha e acende-o,
olhando-o divertida.A fumaça sai de sua boca em
pequenos círculos, que singram o ar em direção a
janela.
___Vou te deixar.
Ela para em seco. Observa-o, desta vez curioso. Não
consegue esconder um leve sorriso satisfeito.
___Não pode deixar o que nunca teve garoto.
Ele ergue-se. As palavras, mais dolorosas que um tapa
na cara. Não se devem dar tapas na cara nem por
brincadeira.
Ele caminha lentamente até a janela, realmente
decidido a fazê-lo. Ela o observa com desdém. Vira o
rosto para o outro lado da sala tragando lentamento o
cigarro.
"A pessoa que mais me fez feliz..."
Ele lança-se pela janela. a queda é rápida e o som que
faz o corpo, ao atingir o solo é o de um saco de lixo
com restos de algum suíno.
O óculos ao lado, e uma poça de sangue, lentamente
tornando-se maior. Ele parecia feliz. Agarrava uma
folha de papel fotocopiada com alguns dizeres.
Números, cálculos, ítens, o simbolo de uma sigla
americana estranha.
Havia um nome, feminino ao lado do seu.
Enquanto o corpo caia lentamente através do invólucro
de vidro despedaçado, a mulher teme. Teme algo que não
compreende. Teme a partida daquele que mais odiava.
Mas porquê? Qual o problema de estar só?
Não lembrava de estar só alguma vez em sua vida. Na
verdade, não lembrava de algun momento em que ele não
estivesse presente. Ao menos, consciente. Será que nem
mesmo em sua infância?
Viu-se pálida e aterrorisada. Percebeu por um breve
momento que não se lembrava de sua infância, ou mesmo
de algum dia ter crescido. Nem adolescência, brigas de
família ou primeira menstruação. Sentia como se não
tivesse existido antes que aquele homen infantil, que
atirava-se pela janela, a houvesse desejado a ponto de
criar em sua própria mente, um espacinho onde ela
pudesse viver. Ter consciência. Vida própria. E isso
que mais fazia com que ela o odiasse.
Correu em direção a ele, apesar de saber que já era
tarde. Chorou, como não lembrava de já ter chorado
alguma vez. Recordou todas as pessoas que ignoraram
sua existencia, porque ela não existia realmente. E
retornando ao seu lugar original naquela mente
doentia, assistiram juntos, ele e ela, o aproximar
veloz do solo, e o impacto violento que mataria ambos
de uma vez só.
Sobre o Autor: Rodrigo escreve não porque goste, mas porque precisa. Existem coisa que doem quando não saem do peito. Existem coisas que não deveriam se tornar reais.
Ele escreve em www.livejournal.com/users/maedhros Ele também não tem certeza se é real. Alguns dizem que sim.