Carisma

Rodrigo Pereira de Barros

Estava com as pernas cruzadas esticadas sobre a mesa, os saltos altos a arranhar levemente a superfície de vidro. Seus olhos eram claros e fitavam-no com um ar de deboche quase vulgar. Os lábios entreabertos, irônicos, cobertos de um batom vermelho como o sangue. A saia, curta, marcava de leve suas coxas, cobertas essas por uma meia calça fininha. Ela sorriu.
___Diga o que veio dizer.
Ele estava encolhido a um canto. Abraçava as próprias pernas e o rosto estava rubro de tanto que havia chorado. Estava com cara de quem não dormia a semanas. Os cabelos desgrenhados e volumosos, os olhos úmidos, a boca trêmula. Ele parecia não conseguir fitá-la, ao passo que esta, olhava-o fixamente.
___Eu...
___Você não muda garoto. nem nunca vai mudar...
Ela retira um cigarro de uma caixinha e acende-o, olhando-o divertida.A fumaça sai de sua boca em pequenos círculos, que singram o ar em direção a janela.
___Vou te deixar.
Ela para em seco. Observa-o, desta vez curioso. Não consegue esconder um leve sorriso satisfeito.
___Não pode deixar o que nunca teve garoto.
Ele ergue-se. As palavras, mais dolorosas que um tapa na cara. Não se devem dar tapas na cara nem por brincadeira.
Ele caminha lentamente até a janela, realmente decidido a fazê-lo. Ela o observa com desdém. Vira o rosto para o outro lado da sala tragando lentamento o cigarro.

"A pessoa que mais me fez feliz..."

Ele lança-se pela janela. a queda é rápida e o som que faz o corpo, ao atingir o solo é o de um saco de lixo com restos de algum suíno.
O óculos ao lado, e uma poça de sangue, lentamente tornando-se maior. Ele parecia feliz. Agarrava uma folha de papel fotocopiada com alguns dizeres. Números, cálculos, ítens, o simbolo de uma sigla americana estranha.
Havia um nome, feminino ao lado do seu.

Enquanto o corpo caia lentamente através do invólucro de vidro despedaçado, a mulher teme. Teme algo que não compreende. Teme a partida daquele que mais odiava. Mas porquê? Qual o problema de estar só?
Não lembrava de estar só alguma vez em sua vida. Na verdade, não lembrava de algun momento em que ele não estivesse presente. Ao menos, consciente. Será que nem mesmo em sua infância?
Viu-se pálida e aterrorisada. Percebeu por um breve momento que não se lembrava de sua infância, ou mesmo de algum dia ter crescido. Nem adolescência, brigas de família ou primeira menstruação. Sentia como se não tivesse existido antes que aquele homen infantil, que atirava-se pela janela, a houvesse desejado a ponto de criar em sua própria mente, um espacinho onde ela pudesse viver. Ter consciência. Vida própria. E isso que mais fazia com que ela o odiasse.
Correu em direção a ele, apesar de saber que já era tarde. Chorou, como não lembrava de já ter chorado alguma vez. Recordou todas as pessoas que ignoraram sua existencia, porque ela não existia realmente. E retornando ao seu lugar original naquela mente doentia, assistiram juntos, ele e ela, o aproximar veloz do solo, e o impacto violento que mataria ambos de uma vez só.

Sobre o Autor: Rodrigo escreve não porque goste, mas porque precisa. Existem coisa que doem quando não saem do peito. Existem coisas que não deveriam se tornar reais.

Ele escreve em www.livejournal.com/users/maedhros Ele também não tem certeza se é real. Alguns dizem que sim.