Estudo do Extraordinário

Jefferson Seide Molléri

Havia lágrimas em seus olhos. Não – ela disse, apoiando as costas contra a parede fria. Seus olhos pediam clemência, mas ele não parecia ouvir, não parecia querer ouvir.

- Por favor – suplicou – não!

Não conseguia sequer erguer os olhos para ele. Via seus sapatos somente, os velhos sapatos marrons gastos e sujos de pó e argamassa. A mesma argamassa que lhe grudava a barra da calça de linho.

Ela podia ouvi-lo trabalhar. Erguer um a um os tijolos, cimentando-os com a pá de pedreiro. A luz fraca e bruxuleante aos poucos foi sendo obstruída pelas carreiras de tijolos que se acumulavam.

Ela queria gritar, mas não podia. Seu estômago revoltava-se e a cabeça doía-lhe imensamente. Mas podia lidar com o torpor e tontura que operavam em sua mente. Tentava em vão organizar os pensamentos. Mas em sua mente vinham-lhe somente as lembranças da infância, as surras de cinta da mãe e o esconderijo, debaixo da cama. Podia ver ainda as sandálias da mãe, suas meias listradas, e sabia que a cinta estava separada esperando.

Chorou outra vez, mas ele a ignorou. Tapava-lhe os olhos, e pouco a pouco encarcerava-a na escuridão. O frio e a umidade torciam-lhe os ossos, doía-lhe as juntas. E a cabeça, novamente a cabeça.

Por fim tudo foi coberto pela penumbra e ela ouviu os passos lá fora. O ruído da pá de pedreiro contra a pedra. Na escuridão, sozinha ela rezou. Que Deus tivesse piedade dela, e da alma dele.

E no isolamento de seu cárcere, algo a acariciou, algo quente e felpudo. Graciosamente deitou-se sobre seu colo e ronronou.

Sobre o Autor:
Jefferson Seide Molléri, é leitor, escritor e às vezes até mesmo parece poeta. Diz que tem uma veia gótica, desperta na juventude por um tal de Edgar Alan Poe, e suas Histórias Extraordinárias, veia esta que parece ter se tornado mais e mais aparente com os anos. Publica gothiquices em seu blog pessoal Caindo... e mantém um conto medieval periódico n'os Cavaleiros do Reino do Horizonte.