A voz no fundo da sua cabeça

Carlos Eduardo Krambeck de Souza "Carl"

Caminhando pelas estradas do infinito... Dor de novo... O mal parece ter tomado conta dessas terras. Vejo ao longe as chamas que sobem dos telhados da vila. Alguém grita em desespero na escuridão. Mas eu não estou aqui pra trazer o alívio, apenas pra piorar tudo, como sempre.

Por mais que você tente ajudar, é inútil. Mesmo que você dê um milhão de motivos pra não fazer, a pessoa sempre acaba pulando do precipício. Como ela fez... Por isso agora eu não ajudo, eu empurro do precipício e que deus decida quem deve viver...

Continuo andando.

Sempre chove em noites como essa. Mas hoje não. Nem a chuva teria coragem de presenciar o que eu pretendo fazer. Mal aos maus. Bem aos bons? Que tal mal a todos? Que diferença faz? A eterna ilusão humana de que nós estamos aqui por mais do que um mero acidente evolutivo. Não, eu não!

A humanidade fede! Não por seus erros, mas por ser incapaz de mudar aquilo que foi estabelecido como certo. O mal que os homens fizeram aos homens é muito maior do que aquele que deus ou diabo poderiam fazer.

Dois passos mais e eu estarei imerso na fumaça e no sangue.

- Me ajude senhor! O meu filho está preso na nossa casa e vai ser queimado vivo! Diz uma camponesa coberta de fuligem.

- Claro, claro. Se acalme. Qual é a sua casa? Pergunto a ela.

- É essa aqui senhor! Bem a nossa frente!

- E porque raios você não entrou aí ainda pra tira-lo das chamas?

- Mas... eu acabei de sair do fogo senhor. E só agora percebi que ele ficou lá dentro!

- Certo... primeiro você foge sem nem lembrar que tem filhos e agora quer que eu te ajude? Não lhe ocorreu que é mais honesto admitir que você é que está errada e que a única forma de se redimir é saltando pra dentro do fogo e morrer tentando salvar o filho que você esqueceu? Olho pra ela com desprezo. Ela me olha de volta atônita.

- Mas... o senhor é forte e jovem! E eu sou só uma pobre camponesa! Eu não teria como salvar o meu filho! Por favor senhor, me ajude! Lágrimas correm pelo rosto enrugado prematuramente da, não tão velha assim, senhora.

- Ta, ta. Então eu devo salvar o seu filho? Que eu nem conheço? Por que? Porque eu sou forte e jovem como você diz? Ou porque se eu não fizer isso você vai ter a desculpa perfeita pra contar aos outros e a si mesma? (imitação de voz feminina) ‘Oh! Não é minha culpa! O menino ficou preso sob o armário e o cavaleiro que passou por aqui se negou a me ajudar. A culpa é dele! Ele poderia ter feito alguma coisa e não fez! Tadinha de mim...’

- Eu não estou entendendo senhor... é claro que eu não diria isso! Mas rápido me ajude! Não existe nenhum vestígio de bondade no seu coração? O desespero brotando por trás dos olhos dela.

- Hahaha. Coração? Admita. Você nunca quis que esse menino nascesse. Ele é um estorvo na sua vida, desde que o pai desnaturado (se é que você sabe quem é) foi embora e te deixou com esse peso a ser carregado. Mas agora surgiu uma boa oportunidade pra você se livrar dele e aí aparece um cavaleiro miserável que fica te enchendo de verdades ao invés de ajudar, ou morrer tentando de preferência.

- Como você... Mas que absurdo! Isso é a coisa mais maligna que eu já ouvi até hoje! Você deve ser o próprio diabo! Maldito! Ela dá dois passos em direção ao cavaleiro e pára.

- Por favor... nós já passamos desse ponto da conversa... indignação não combina com o seu discurso de pobrezinha de mim... Digo a ela, a mão esquerda sobre o cabo da espada.

- Faça alguma coisa! A camponesa se senta no chão e desanda a chorar.

- Façamos um acordo. Proponho. Você admite que é incapaz de ajudar o seu filho porque é covarde demais pra correr riscos, mesmo por algo que você realmente queira. Que mesmo que eu não aparecesse o seu filho já estaria morto e você só faria ficar aqui chorando até algum vizinho ou viajante chegar e te ajudar, te dar um lugar par ficar e cuidar de você. Faça isso e eu salvo o seu filho. Caminho lentamente ao redor dela.

- Tudo bem! Eu admito qualquer coisa! Mas salve ele!

- Não. Admita a sua fraqueza de caráter e eu farei.

- É verdade. Eu não teria coragem de entrar no fogo, nem por ele. Agora faça alguma coisa!!! Ela está a beira de um ataque histérico. Dou a ela um olhar vazio novamente.

- O seu filho já morreu. Na verdade, se você não tivesse ficado conversando comigo esse tempo todo, já teria percebido que a porta dos fundos não está em chamas e que realmente o moleque ficou preso debaixo de um armário tentando chegar lá. E pior, que você facilmente poderia tê-lo salvo. Camponesa me olha com cara de choque.

- E porque você não disse isso antes? Que tipo de pessoa faz uma coisa dessas?

- Que tipo? Não sei, eu faço. Eu já ajudei muitas pessoas que precisavam e sabe o que eu descobri? Que as pessoas não querem ser realmente ajudadas. Elas só querem atenção e boas desculpas pras próprias falhas.

- Mas... mas... se você me dissesse isso antes eu teria salvado ele. Você o deixou morrer! Perco a paciência.

- Eu? Que me conste foi você que não fez absolutamente nada além de conversar comigo. Olho para o céu. Por que as pessoas sempre acham mais fácil culpar os outros quando elas não têm coragem de mudar o que as incomoda? Sorrio.

- E agora? O que eu faço da minha vida? Expressão suplicante.

- E eu é que vou saber? Se mate! Seria a atitude mais honrada. Ou conte a sua história triste (pode me incluir nela) pra próxima pessoa que passar aqui. Provavelmente ela vai te ajudar, vai acreditar em você, vai ter pena, e todas essas coisas maravilhosas e debilitantes que a civilização nos trouxe. Ela parece realmente assustada.

- Deus me proteja! O próprio diabo veio me levar pro inverno! Cai de joelhos rezando.

- Diabo? Onde? Olho ao redor. Ah! Eu? Hahaha. Olho pra baixo. Você vive cruzando o meu caminho mesmo ein! Sorrio. Pare de dizer asneiras mulher! Seu deus e sua fé não podem mudar nada agora, mas você ainda pode se redimir. O fogo liberta, o fogo purifica.

A Camponesa, trêmula e hesitante, pergunta: Será?

Sussurro no ouvido da camponesa: Claro. O fogo é a solução. Sinta, ele está te chamando... quente, selvagem, livre. Liberte-se da dor. Liberte-se desse mundo sujo que só massacrou uma pessoa boa como você... tenha fé, o senhor vai recebe-la em sua morada...

 

Caminho pelas estradas do infinito... deixo pra trás uma vila arrasada pela guerra... e uma mãe em chamas, abraçada ao cadáver do filho... Sorrio, não existem limites para o mal.

Quem eu sou? Eu sou apenas um homem que vaga pelo mundo, dando as pessoas exatamente aquilo que elas querem. Não o que elas dizem que querem, não o que é melhor pra elas e nem o que elas acham que querem. Mas sim o que realmente elas querem, do fundo dos seus submissos e padronizados corações. Um dia o meu trabalho vai acabar. Mas não hoje. Hoje eu sou a voz no fundo da sua cabeça...