O sol nasceu alto naquele dia, logo no único dia em que ele desejava não vê-lo, ou melhor, não ver ninguém, o dia resolvera ser lindo, com passarinhos cantando, crianças correndo e a vizinha gostosa se trocando de janela aberta. Vida injusta. Suspirou cansado da sua vidinha medíocre, da sua vidinha cheia de garotas bonitinhas, rapazes certinhos, uma vidinha... vidinha!
Cansou de procurar defeitos pro seu estado. Cansou de esperar pelo que não vinha. Cansou de viver. Suicídio! Isso, isso mesmo, essa era a solução, quer dizer, a solução pra alguém que tem coragem de se matar, pr'alguém que tem a ousadia de renunciar a um mundo cheio de boas mulheres querendo se divertirem, um mundo cheio de pecados a serem cometidos. É, definitivamente esse não era seu caso. Quando ele finalmente rendeu-se ao estado tedioso que o dominava, colocando o rosto no travesseiro cheirando a mofo, ouviu as batidas tipicamente divertidas, e debochadas na porta. Estava mesmo demorando pra que ela chegasse...
_Abra essa porta, otário.-uma voz irritante, de menina, uma menina bem crescida, diga-se de passagem.
_Me recuso a falar com alguém com o seu nível de ignorância, Monica.
_Repita isso, e você será um homem morto.-ela chutou a porta, e ele ficou em silêncio, ouvindo os passos enfurecidos da moça descendo a escada.
Afundou a cabeça no travesseiro cheirando a mofo, e percebeu outro cheiro estranho, deveria ser obra do seu gato, ultimamente ele andava com sérios problemas na bexiga.
_Abra logo isso, seu teimoso.
Ela estava na porta novamente, menina insistente.
_Não. E me deixe em paz, vá embora.
_Não posso. As chaves da minha casa estão aí. Por favor, abra...
Ele suspirou, mordeu o travesseiro, e cuspiu no chão, talvez o problema do gato não fosse exatamente na bexiga...
_Vamos lá...-ela adquiriu uma voz mais suave, era mesmo boa em persuadí-lo.
Levantou-se irritado, abriu a porta, e deu de cara com uma menina de seus dezoito anos, cabelos negros compridos, amarrados num rabo de cavalo, que iam caindo pelo ombro, deixando fiozinhos sobre os seios que... certo, vamos parar por aqui sobre o cabelo dela. Os olhos de Monica eram verdes, claríssimos, como a água de um rio límpido, cheio de peixinhos simpáticos, só que havia uma diferença... Monica não era muito simpática.
_Graças a Deus, estava demorando pra cair na real.
_Quê?-apoiou-se na parede, encarou-a irritado e logo em seguida fez menção de fechar a porta, ela segurou-a.
Ele havia esquecido como Monica era forte. Forte demais pra uma garota de aparência tão delicada.
_Não vou deixar você fechar essa porta.-sorriu, encantadora era ela, pena que fosse tão esquentada.
_Afinal, o que é que você quer?
Ela deu um longo suspiro, abaixou a cabeça, e ao levantá-la, ele notou lágrima nos olhos dela... Lágrimas que estavam cada vez mais perto de rolarem pelo rosto pálido de Monica.
_Não, não, por favor não chore Mon!
Era tarde demais.
_Você não entende não é?-ela gaguejou, enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto, e morriam nos seus lábios rosados.
_Entre aqui Mon, entre!-ele pegou-a pela mão, e sentou-a na cama, enquanto procurava um lenço para dá-la, antes que ela acabasse usando sua colcha como um. Avistou então o travesseiro com cheiro de mofo e de algo que o gato fizera em cima, e atirou pra ela:
_Pegue Mon, enxugue suas lágrimas.
Sentou ao lado da garota e abraçou-a.
_Pronto Mon. Viu? Você não precisa chorar, eu já abri a porta e você está aqui, viu?
Ela levantou o rosto, como uma menininha pequena, e acenou com a cabeça. De repente ela não parecia mais irritante aos seus olhos.
Aproximou-se da moça, perto o suficiente para contar quantas sardinhas ela possuía no rosto, e quando ele ia fechando os olhos...
_Argh!Que cheiro horrível é esse?!-jogou o travesseiro longe-Que coisa nojenta! Aquilo cheirava a...
_Shhhh! Não fale Monica, você vai magoar o Pete se ele estiver por perto!
_Magoar?-encarou-o incrédula.-Um gato?
_É.-corou-Ei, ei, ei! Você não está mais chorando!
Monica sorriu envergonhada, menina marota...
_Sua...-ele apertou os punhos com força, enquanto ela ia em direção a porta do quarto-Vamos logo, pegue sua maldita chave e saia do meu quarto!
Monica encabulou-se, tirou do bolso a chave da casa, e já ia saindo ofendida quando ele levantou-se.
_Espere aí, Monica.
Ela virou-se.
_Que é?
_Aonde você pegou a chave?
_As chaves? Ah, estavam no meu bolso e...
Ela parou bruscamente, e pôs-se a correr, com ele em seus calcanhares.
_Volte aqui sua mentirosa!
_Olha quem fala! Seu travesseiro cheira a cocô de gato!
_Não fale assim! Vai magoar Pete!
_Ah cala a boca...
E continuou a sua vidinha medíocre, com uma garotinha bonitinha e esperta, e um gato com problemas intestinais.