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Ela e Ele


Rodrigo Pereira de Barros

Acordou Cedinho. Os olhos Borrados de quem chorara a noite inteira. A cama cheia de lenços de papel por todo lado, e um pote de sorvete de chocolate gigante completamente derretido na mesinha do abajur.

___Merda. Merda! MErda!

Havia passado a noite inteira chorando. Pensando nele. Mas como era estúpida e insistente!

Pensava. Tudo bem que ele era lindo, era moreno, tinha aqueles olhos devastadores que pareciam atravessar sua alma... Mas caras bonitos não faltavam que a queresse. Mas ela era teimosa. Não era de desistir fácil.

Levantou-se decidida, e não tardou a tropeçar em uma caixa no meio do quarto.

Droga, tinha que ve-lo! Mas como? Precisava de um pretexto. Talvez chegasse lá chorando e dizendo que a avó morrera. Não, suas duas avós já morrera... Droga, porque elas não esperaram um pouquinho? Talvez um maníaco havia tentado essstrupa-la... não, isso é muito batido.

Forçou a cabeça pensando em algo convincente. Entrou ao banheiro e tomou um belo banho, que lhe refrescou as idéias.

___A Chave!

Sim, diria que esqueceu as chaves de casa lá! Sim perfeito. Ela era uma gênia. Aquele Paspalho era o único que n~ão tinha notado.. Idiota.

Impulsiva. Totalmente. Pensou em escolher algo sexy pra vestir, mas ficaria muito na cara.

Talvez algo um pouco mais comportado com um decotinho aqui, outro ali... Não, iria normal.

Confiava em suas armas de sedução. Não ia ser a primeira vez que o seduziria com seu jeitinho.

Chegou no apartamento. Deus, como ainda não interditaram esse lugar? Bateu na porta, daquele jeitinho, imitando uma musiquinha de desenho animado.

"Tan, tan tan tan tan... tan tan!"

Um Miado lá dentro. Era aquele gato medonho.Ah, como odiava aquele gato. Se fosse uma mulher, não teria tantos ciúmes.

___Porque você não morre, gato miserável?

___Abra essa porta, otário. Berrou de forma estridente.

As vezes se surpreendia como sua voz podia sair de forma tão irritante. Se conteve. Precisava ficar calma.

___Me recuso a falar com alguém com o seu nível de ignorância, Monica. - Ouviu a voz dele, abafada, lá de dentro.

___Repita isso, e você será um homem morto!

Ora, quem ele pensava que era? Do seu nível? Realmente, é um idiota. Melhor ir emboora e deixar esse paspalho se foder!

Chutou a porta e desceu a escada aos trambolhões, decidida a não mais voltar. Mas parou de súbito. Um nervosismo estranho. Um receio...

___Merda, não adianta. Eu não quero ir.

Subiu a escada devagar, e encostou um pouco trêmula a porta.

_Abra logo isso, seu teimoso.

_Não. E me deixe em paz, vá embora.

Como ele era grosso. Isso a irritava por demais. Tentou se manter calma.

_Não posso. As chaves da minha casa estão aí. Por favor, abra...

_Vamos lá...

Ela falou delicadaente, daquele jeitinho de criança pedinte... Era uma FDP de carteirinha, sabia que isso sempre funcionava...

Ela ouviu um suspiro alto. Ouviu sons de um estrado barulhento, e de passos. Não pode conter um risinho maroto.

A porta se abriu. Ele tinha recem acordado, seu cabelos estavam bagunçados. Maldito, isso ficava tão charmoso nele. Fitou-a com aqueles olhos castanhos profundo, que causaram um leve arrepio em sua espinha. Não conseguia não olhar pra aquela boca... aquela mesma boca que... Chega. Deveria mater-se calma, ou estragaria tudo.

___Graças a Deus, estava demorando pra cair na real.

___Quê?-

Ele parecia meio perplexo com a cara de pau dela. Impaciente, deu um suspiro auto e tentou fechar a porta de súbito, mas ela, esperta, já havia previsto isso.

___Não vou deixar você fechar essa porta.

Sorriu sinceramente. Não conseguia ser rude quando se tratava dele.

___Afinal, o que é que você quer?

Ela ia dizer-lhe, continuar com o teatrinho. Mas por um instante, bateu-lhe uma tristeza profunda. Uma vontade de pular sobre ele e abraça-lo. Droga, haviam sido tão felizes! Porque ele não queria continuar tudo aquilo? Escapou-lhe uma lágrima. Merda!

___Não, não, por favor não chore Mon!

___Você não entende não é?

Ela viu seus olhos. Estavam brilhantes de compaixão. Tinha um expressão tão compreensiva, complacente. Era tão Calmo com ela. Ela e suas crises Histéricas, e ele sempre com aquele olhar tranquilizante. maldito. Maldito. Maldito!

___Entre aqui Mon, entre!

Ela obedeceu, ainda soluçante. Ele pegou algo e entregou a ela.

___Pegue Mon, enxugue suas lágrimas.

Ela enfiou o rosto na coisa branca, ainda soluçando e ele deu-lhe um abraço para acalma-la.

Ela sentiu seu corpo queimar, ao toque daquele que gostava tanto. Quase deu um suspiro, mas conteve-se. MALDITO!

___Pronto Mon. Viu? Você não precisa chorar, eu já abri.

Ele a tratava como a uma filha. Carinhoso, como ela sempre gostara nele. Não mais parecia o homem groço que a enxotara a princípio. Queria ficar nesse abraço pra sempre. Notou que ele se aproximava dela. Ela ainda fungava um pouco, as lágrimas estavam secando.

Notou que ele se aproximava. Sim, se aproximava lentamente. E..

___Argh!Que cheiro horrível é esse?!

Não aguentando, ela lança aquilo (era um travesseiro) a metros de distancia. Aquilo cherava a merda de gato. Mas que absurdo! Esse gato idiota!

___Que coisa nojenta! Aquilo cheirava a...

___Shhhh! Não fale Monica, você vai magoar o Pete se ele estiver por perto!

___Magoar?Um gato?

Ele podia ter muitas qualidades, mas havia coisas nele que a irritavam demais. Ora, magoar um gato? Que coisa estúpida! Esses sacos pulguentos eram uns cínicos. Só esse estúpido não percebia.

___É.Ei, ei, ei! Você não está mais chorando!

Monica teve um sobressalto. Colocara tudo a perder.

___Sua...

Ele parecia nervoso. Pegou-a com força pelos pulsos. Nem estava maxucando muito, ele era delicado demais pra tentar machuca-la realmente. Mas não custava fazer uma ceninha...

Entretanto, havia ficado ofendida de verdade. Afinal, seu choro tinha sido verdadeiro. Ao menos o choro. Pegou a chave do bolso, e virou-se meio colériaca em direção a porta.

___Espere aí, Monica.

Ela parou. Um lampejo de esperança. Ele vai pedir desculpas. Vai me perdoar.

Sei lá.

___Que é?

___Aonde você pegou a chave?

___As chaves? Ah, estavam no meu bolso e...

Merda! Merda! Burra! Burra! COMO FOI FAZER UMA BESTEIRA DAQUELAS?

___Volte aqui sua mentirosa!

___Olha quem fala! Seu travesseiro cheira a cocô de gato!

___Não fale assim! Vai magoar Pete!

___Ah cala a boca...

E continuou a sua vidinha confusa, com um garoto carinhoso e desorganizado, e um gato com problemas psicológicos.