[19:49]
Estava atrasado, a mais de quinze minutos atrasados. Toda São Paulo parecia estar na rua naquela sexta-feira a noite. Em pleno agosto, numa noite que a temperatura mal chegava aos 16 graus a cidade fervilhava em agitação.
Eu havia sido pego pela correnteza, arrastado pela multidão de pessoas e estava perdido. Perdido no metrô, quem diria? Mas eu não era de São Paulo, portanto era desculpável. Ou não?
Não lembro onde errei, mas eu deveria estar na Saúde as 19:30 e meu relógio avançou, sem parar, sem me questionar, bem além desta marca.
Me dirigi para fora do vagão semi-vazio por estar no ponto final da linha. Como assim ponto final? Caminhei para a plataforma e me dirigi as escadas rolantes com o objetivo de pegar o trem da linha de volta, mas a escada não estava funcionando. Azar?
Subi correndo e quase escorregando as escadas e me deparei com um terminal vazio, coberto somente por sombras que passavam pelas esquinas e vozes que ecoavam próximas, denunciando pessoas ainda pouco além da minha visão. Lembrei-me da má fama da cidade e apertei a carteira contra o bolso.
Um miado baixo e prolongado ecoou pela plataforma, seguido de perto por seu performista, um pequenino gato de pêlo negro que atravessou meu caminho.
Gargalhei sozinho na estação, caçoando de meus próprios medos e superstições. Só me faltava uma sexta-feira 13! Um estalo na minha cabeça, o flashback da propaganda do outdoor: "Mulher-Gato, estréia sexta-feira, 13 de Agosto". Tremi.
A passos largos corri para a plataforma oposta, mas ao chegar no fim da escada um letreiro logo acima apontava duas direções distintas, Plataforma 1: Barra Funda; Plataforma 2: Vastidão.
A segunda opção me chamou a atenção. Pessoas passavam por mim apressadas neste momento, descendo as escadas, rumo a plataforma da esquerda. Poucos se davam conta da segunda plataforma ou mesmo do letreiro no fim da escada.
Olhei para o lado curioso a tempo de vislumbrar ao longe os faróis do trem para a Vastidão aproximando-se. Uma curiosidade repentina tomou conta do meu ser e eu corri para a plataforma 2. Tive poucos instantes para mudar de idéia antes que o trem parasse e suas portas se abrissem. Haviam mais três pessoas no vagão, duas das quais olhavam para fora, enquanto a terceira, sentada ao fundo, escondia o rosto nas mãos.
Uma estranha melancolia reinava no lugar, nas vestes escuras, nas feições sombrias dos passageiros daquela linha. O homem mais próximo voltou-se para mim, mas era como se seus olhos penetrassem e atravessassem a minha carne, vendo-me do avesso. Engoli em seco e voltei-me também para a janela. O trem partia.
Não era exatamente um metrô, pois todo o caminho ele seguira por sobre a terra, por entre as ruas e vielas da cidade cinzenta. Em todo lugar a noite caía, e as luzes amareladas dos postes emanavam uma radiância leitosa que pouco a pouco se tornava esbranquiçada, pálida.
O trem chacoalhava, ao ritmo incessante das falhas dos trilhos, que pareciam acompanhar o compasso dos postes mais próximos, quase totalmente cobertos pelas instalações e fiações remendadas.
Os fios pareciam gemer, cantando alto um lamento fúnebre pela alma da cidade, encomendada há muito tempo ao reino de Hades. O próprio solo parecia gemer, como se seu grito houvesse sido sufocado pelas enormes estacas de aço e concreto que lhe cravaram-lhe no ventre.
Mal notava quando, dentro de mim as esperanças e anseios se apagavam, deixadas para trás naquela plataforma de trem. Eram substituídas, conforme me afastava, por uma estranha apatia e uma ainda mais estranha familiaridade. Tudo parecia tão correto, tão perfeito, em seu modo ríspido e decadente.
E o trem diminuiu sua marcha até parar, na estação de Vastidão Cinzenta, e eu desci, junto a meus companheiros, com a inquestionável certeza de ter chegado a meu destino.
Jefferson Seide Molléri, é escritor amador, leitor compulsivo, metaleiro e jogador de RPG. Entre suas preferências incluem-se a fantasia medieval (irlandesa), o terror gótico (e alemão) e o romance dramático (shakespeareano). Publica seus pensamentos em seu blog pessoal Caindo... e mantém um conto periódico n' os Cavaleiros do Reino do Horizonte.