Anda pelas ruas. Um bar, uma boate, um canto qualquer. Que importa o local? Escolhe ao acaso. Música muito alta, como convém. Cheio, mas não lotado: tudo perfeito para o objetivo da maioria dos freqüentadores, dele inclusive.
Anda, pára no bar, pede bebida. Bebe e observa: as mesmas pessoas, rostos, sorrisos. Olhares oblíquos em busca de aprovação, desejo, malícia... luxúria.
E em meio a tudo, ela. Dançando como quem perdeu a alma, imersa em sua alegria e vigor. Pulsa como a música, brilha imensamente como quando ele a conheceu. Não recordar? Impossível conter o fluxo de memórias e lembranças.
"Não me afastei, já? Não neguei que seja ela "a" pessoa? Não disse e convenci a mim mesmo que não rola, não presta, não é bom? Nem a considero tão bela: o corpo é perfeito, é claro, seios grandes, magrinha... poderia ter mais bunda, mas e daí? Quem se importa? O rosto nem é tudo isso. E nem as idéias! Gosta de ler, tem bom gosto musical, mas é uma preguiçosa, mimada..."
Poderia passar a noite assim, lançando imprecações contra ela, na realidade ofendendo a própria covardia em procurá-la, a subordinação a sua mera imagem, o modo como seu coração - "a contra-gosto" - descompassa ao vê-la. Mas ela vem em sua direção: o viu, reconheceu, quer conversar. "Impossível aqui, vamos sair?" "Sim, sim..."
- que calor! Então, você lá bebendo sozinho, como isso?
- cansado da caça, de ver as mesmas pessoas com atitudes idênticas e sorrisos iguais em busca sempre do mesmo prazer fácil e rápido...
- você não era assim amargo.
- ...
- deixa disso! que tem de mal um prazer fácil...? rápido não é bom... geralmente, quanto mais demorado melhor...
Amaldiçoa a malícia na voz, os olhos suplicantes e o perfume doce, inebriante. Pensa desesperado: "Como não se deixar enfeitiçar?"
- muita demora pode acabar com o prazer. E muita facilidade pode tornar tudo fútil.
- você continua se preocupando demais. Vem!
Pega-o pelo braço, atravessam novamente a pista, ela dança junto a ele, sensual. Desajeitado ele a acompanha durante a noite, dançando, bebendo e rindo. Beijam-se, agarram-se, ela o provoca até seus limites.
- chega! é hora da gente sair daqui, chega desse lugar, dessa gente, eu quero é você...
Ela ri alto, beija-o apaixonadamente, pede desculpas e cita o namorado, antes de sair correndo, novamente.