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Robôs bem-programados

Suelen Trevizan

Eram sete horas da manhã. O ônibus cheio corria as avenidas pendendo para os lados. Quem ia dentro já nem sentia coisa alguma, só o que restava a fazer era não sair do lugar, não falar, não respirar. Dentro daquela massa heterogênea de braços e pernas multicoloridas estava Josefa. Mocinha de dezenove anos, não tinha recordação de qualquer manhã desassociada àquele tubo de ensaio ambulante. Nunca fora à escola. Nunca deixara de trabalhar desde que se entendia por criatura faminta.

Na agilidade de sua magreza, saltou no ponto de ônibus. Foi se esquivando das mãos oportunistas até que finalmente atingisse a casa da patroa. Dim-dom. O rangido da porta. A cara enrugada ainda mais encrespada a aparecer atrás da barreira de madeira.

— Mas você é folgada, hein! Sempre chegando atrasada.

A empregada baixou a cabeça. Na condição de subordinada, não podia discutir. Era paga para exercer seu serviço e para assumir todas as culpas com que topasse (embora esse último ordenado jamais viesse na folha de pagamento). Segundo a lei, a que jamais foi escrita, mas que rege as atitudes humanas desde que surgiu a humanidade, seu único direito era o de trabalhar. Até então, tudo ia bem, pois Josefa jamais estivera ciente de que também era humana.

Tratava de engolir a bronca, quer fosse justa quer não, e punha-se a fazer suas atividades cotidianas. Lavar, passar, limpar, esfregar, lustrar, chorar baixinho na beira do tanque, cozinhar, tomar conta das crianças mal-criadas, arrumar, engolir sapos e lagartos, amaldiçoar a patroa, enxugar (lágrimas, pratos, urina do cão)... Tudo isso ela fazia diariamente.

— Mas você é mole, hein! Deixa dessa ociosidade - lá vinha a velha supervisionar o trabalho.

— O que é ociosidade, senhora?

— Para que você quer saber? No gueto onde você mora, ninguém ia entender mesmo uma palavra assim na sua boca... Mas larga dessa amolação e vai trabalhar, que a mim você não enrola!

Josefa obedecia sem mais discussões.

Só deixava o lar da patroa quando os últimos raios solares sumiam-se. Dirigia-se para o ponto de ônibus, seu velho conhecido, dividida entre raiva, cansaço e agradecimento a Deus por ter obtido o pão diário.

Lá ia Josefa espremida entre muitos outros. Voltava para a manutenção na oficina. Seu sistema seria verificado e, caso tivesse sorte, um pouco de óleo seria aplicado nas juntas. Tudo isso para que no dia seguinte estivesse no jeito para cumprir com sua função, sem falhas.

Na outra manhã, mais uma vez o ônibus ia cheio. Cheio de rostos apagados, conformados, cansados. Cheio de exigências e metas a serem atingidas. Cheio de trabalhadores bem-programados. Vazio de idéias próprias.