Lugar Algum, 11 de Dezembro de 2003.
Sr. Futuro, há muito venho pensando em escrever para você. Como estais? Espero que estejas bem, pois por aqui as coisas andam feias, não quero preocupá-lo, nem apressá-lo para chegar, mas bem que podias pegar uma caroninha com o Amanhã, pois ele sempre vem rapidinho, vem rapidinho mas não traz muita coisa não, é verdade, mas quem sabe se vierem juntos, você, o Futuro Todo Poderoso da Silva, e o amanhã teremos força pra encaixotar todo esse caos da modernidade e mandarmos tudo isso pra dona Passada História da Silva que já aguarda há muito tempo por essa mudança, depois que a Moral começou a pular a cerca, a Ética, sempre humilde, foi sendo deixada de lado, pois a Moral, cada vez mais apelativa e vulgar com seus decotes, atraia a atenção de todos eles, simples mortais e até a minha mesmo, que como homem e animal agi impulsivamente para ver se ela não pulava a minha cerca e caia em meu terreiro, acabei esquecendo aquela mulher tão querida e inteligente, que sua coerência a torna, ainda nestes tempos tão apelativos, a mais bela de todas as mulheres.
Entretanto a, então senhorita Ética, separou-se de mim e fiquei míope, só vendo as coisas de muito perto, tenho saudades dela, mulher que sempre me tornou livre, mas entendo porque ela se foi. Sei que foi atrás de você pensando nas próxima safras, pois a Moral me fez ganancioso e enchi nossas terras de pêssegos e maçãs transgênicas, ainda mais, agrotóxicos - sem pensar nas conseqüências - vejo agora que a quantidade não faz qualidade e os frutos que plantei alimentam mal essa juventude, vejo nos jornais e na subestimação que faz a televisão perante esse público e eles caem, vão aos fast-foods, isso também justifica as mudanças que fiz nas sementes e os pesticidas que tive que jogar em cima dos frutos, concorrer com os industriais sem ser um deles fica difícil hoje.
Lembro-me perfeitamente quando nos conhecemos, eu e sua sobrinha, foi ela quem partiu pra cima, eu simplesmente era meu eu menos pretencioso, conversamos horas naquela noite, então a Natureza tomou conta de tudo e uma chuva torrencial fez com que nos beijássemos lindamente. Eu, naquela época, trabalhava e estudava muito e ela havia recém chego de viagem, você como tio dela deve saber os motivos da viagem, bom, foi maravilhoso e pleno nosso amor.
Futuro, sabe, agora aqui sem ela, só penso em reencontrá-la e andarmos juntos livremente novamente, traga ela junto do Senhor, diga a ela que me arrependo todo o dia, que meu choro dói no peito dos que me vêem, sei que ela saiu daqui me amando, sempre muito sábia, sabia que sua ida seria necessária para meu amadurecimento, não me separarei da Moral agora, nem posso, mas quero que minha esposa e sua sobrinha sejam amigas novamente, que possamos ser todos bons amigos.
Bom, despeço-me aqui e espero que me compreendas, aguardo anciosamente por tua visita.
Humildemente,
Presente Sem Jeito Moderno
O autor pensa que escreve, fotografa, sorri, canta e dança... o autor pensa pelo menos... se pensa, logo existe então alguns pensamentos estão na República (www.arepublica.blogger.com.br). O autor faz parte do projeto Grande Roda de Tambores (www.granderodadetambores.com.br) e convida a todos a conhecer e participar, porque acredita na força revolucionária da consciência. O autor é quem escreve, é autor quem é artista por um instante, quem cria e mostra o que há além do nada.