Itajaí.SC


o que é?
como participar?
divulgue.
contato.

anteriores

I. II. III. IV. V. VI.

melodrama.7

Maringá.PR







anteriores

I.

recado ao autor:


indique para um amigo:




Estaleiro

Giovana Dias

Ela se abaixa e apanha a adaga ritual... sangue no chão, ele está ao seu lado... o dia começa a clarear.
"Como foi que viemos parar aqui?"
O mato à sua volta parece intransponível e as fronteiras enormes de grama e insetos parecem impossíveis de vencer... como foi que ela chegou ali?
A pequena recolhe suas vestes negras do chão e começa a vesti-las sem encará-lo... "Que estou fazendo aqui, por Deus?" - Seu ferimento na barriga dói e lateja.
Ele se levanta, apanha seu pêndulo da boca do cão que os guiara e em seguida a abraça. "Estamos aqui porque assim deve ser."
Um mar de sensações desencontradas tomam conta dela. O nascer do sol tem uma beleza quase insuportável naquelas paragens de sonho. O mundo começa a tomar amálgamas maravilhosos de cor... o dia dói nos seus olhos acostumados à escuridão.

Ele a enlaça ternamente... "nada há senão nós, neste momento e nesta dimensão, só nós..."

Dor. Dor nos seus olhos, embora ela corresponda ao abraço e o aperte junto a si sentindo seu cheiro raro de criatura mágica, que ela tanto tempo levou para identificar... Ele está bem? Será que ela lhe faz mal? Eternos medos e divagações de quem nunca sabe, nem pode saber o que faz...
De súbito outra voz humana: "Quem está aí?"
Ele se assusta, é uma voz masculina penhasco acima: "Sou eu! Responde
Tudo bem... ou quase...
Ela depreende seu corpo do dele e se solta devagar, nos seus pensamentos uma divagação: "Você me ama? - pergunta idiota, vc me odeia."
Quem será o Maldito que os chamou?...
E uma dúvida:
"Eu mereço?" Medo...
Ela sabe que cedo ou tarde a tempestade virá, porque nem ele nem ela têm as respostas absolutas ao que seu mundo interior busca...
Ela se vira e beija-o na testa... para nunca me esquecer.
Ele a beija na testa e depois no rosto.
Para nunca abandonar - embora vc vá fazer isso logo.
Caminhos estranhos que são um... um dia eles reunirão suas vidas todas... No amor ou no ódio Eterno.
Mas agora não pode ser... Não. O caminho ainda será longo e penoso, e as diversas vidas ainda os separarão porque eles não são da mesma matéria... Ela pertence de corpo e alma a outra crença e a outro Amor... ele sabe, sente e sofre, mas tem que ser assim, ele precisa odiá-la e protegê-la.
"Ei..."
"Hun?"
"Nunca abandone sua própria alma"
"Sim ! Hehe... Você sabe que sim!"
O vento sopra forte e doce na matutina calma do costão... olhos fechados... a Dor lancinante que ele sabe que o acompanhará enquanto viver.
Ela solta o corpo de seu abraço e diz
"Tenho que ir"
"Eu sei..."
"Eu não pertenço a este espaço-tempo, nunca poderei ser sua..."
"Eu sei"
"Eu sou dele, do Tempo ... E é só."
"A-Hã"
Diálogo breve, porém verdadeiro.
Ela sobe as encostas sem olhar pra trás...
Sabe que ele, com sua saúde frágil, ofega ao subir, mas sabe que nada tem a ver com isso e que ele deve se virar sozinho. Tão forte e tão frágil, ao mesmo tempo... Grande, imponente, mau... e infeliz.
Ele pergunta ainda uma vez se ela tem certeza do que faz... Como poderia não ter? Levou milênios para encontrar seu Amor verdadeiro... e aí está o resultado.
Ele ainda tenta, perdeu a coerência...
Ela se desvencilha de seu último abraço forçado... "Não"
E escapa entre a louca vegetação tropical... "Ela ainda ama o desgraçado do Mestre"
"Sim"
Ela responde à indagação dentro de sua mente a metros de distância
"Bruxa maldita, esqueci que lia pensamentos!"
É tarde demais, ela correu para o mato - pai de sua alma selvagem - e ele nunca a encontraria se procurasse por ela agora... "Tá bem, louca... Segunda a gente se fala direito".
Ele sabe que nunca mais se falarão, nunca mais trocarão mais que algumas frases e monossílabos.
Ele se volta vencido, e se encaminha para o carro, estacionado meio longe do costão. No escuro, dentro do mato, dezenas de olhos curiosos o seguem, a maioria amarelos e brilhantes:
"Calma meninos, ele já foi"
E os cães selvagens começam um a um a relaxar até que não reste mais que um filhote insolente a louvar a Lua pálida do amanhecer... solitário, enquanto ela divide o chão duro com outros muitos velhos da matilha..."Isso vale tudo...! Estou Viva."
"Maldita, mas viva."- Pensa.
A dor e a delícia...
"Tudo..."
No sono se perde seu último fio de consciência...