A bela dama pálida sussurrava sobre a montanha. Escuro como a noite, também
era seu coração. E gelados eram os ventos que como seu olhar, cobriam os que
passavam de calafrios.
Ela tudo podia ver e nada podia sentir. A mão no ventre, os olhos
repentinamente em chamas.
A gota, caiu sobre o solo.
E outra... E outra gota...
Junto com suas lágrimas, a chuva fina começou a lavar a terra manchada de
sangue inocente. A jovem senhorita recolheu no chão seu punhal e então se
foi nas névoas que encobriam o rio.
Tudo o que se foi... Uma rosa para os mortos...
Tudo o que não foi... Uma rosa para os mortos...
Eu deveria ter falado o que sentia... Uma rosa para os mortos...
Lamentos. A noite gélida parecia lamentar em prantos. As brumas que rodeavam a face enrijecida daquela que já havia tido uma razão pra sonhar. Aquela mesma que tinha seus sonhos agora cobertos do férreo manto rubro das entranhas dos que não pediram pera serem sacrificados em nome de caprichos vãos ou mesmo de um ódio desmedido fundamentado numa única idéia fixa e absurda.
"mamãe, eu não quero ir mamãe..."
"mamãe, tenho muito medo mamãe me proteja!"
"mamãe, não quero morrer mamãe!"
Cai ela, sobre o solo enlameado daqueles charcos imundos. Sente-se Imunda. Sente-se vil. Sente-se suja. Não a sujeira que possa ser lavada com água cristalina, perfumando seu corpo pálido com flores e álmiscar. não. Mas sim aquela que sua alma carrega dolorosamente, e que a mantém acordada enquanto os monstros uivam em sua mente, atormentando-a não apenas no sono dos anjos povoado por demonios, mas em sua existencia subhumana e desprezível.
desprezível?
Lamentável. Apenas uma palavra poderia servir neste momento. A dama dona da alma de tantas pessoas encontrava-se apaixonada, não por um outro alguém, mas sim pela sua própria sombra. Por seus caprichos, seus egoístas desejos de amargura, que a tantas pessoas trouxe mágoa. Mas agora, nessas terras caminha apenas um anjo. Aquele que não fala, não sente, e não mostra seu rosto e não deseja. Apenas aguarda.
A dama pálida e sem forças olhava diretamente para os olhos do anjo postado em sua frente, que brilhava na escuridão.
"És tu um anjo que me livrará do arrependimento?"
O anjo negro estendeu a mão para a dama. E ela ao tocar a mão fria e gélida do anjo adormeceu profundamente. Acordou e admirou sorridente seu corpo morto jogado ao chão. E em volta de seu espírito circulavam luzes brilhantes que cabiam na palma da sua mão.
"Isso me lembra vagalumes"
A dama sorriu e então deixou livres aquelas luzes para que voassem livres. Eram as almas das pessoas que ela havia matado. Ela ajoelhou e pediu perdão a todas elas por seus massacres.
"Eu apenas tenho a oferecer essa rosa aos mortos. Tenho apenas amor a oferecer, e como castigo queimarei de dia e congelarei de noite, Vagando eternamente por essas terras. E que assim seja."
E assim a dama pálida permanece vagando e rezando pelo perdão daqueles que matou por egoísmo. Esperar é seu eterno castigo, esperar ser levada por anjos para o céu que por anos desde criança deseja.