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A um canto escuro
ele escrevia sem parar
podia passar horas escrevendo
as horas não mais avançavam como já avançaram um dia
já não mais eram como antes
seus olhos
pequeninos
ainda cobriam-se de lágrimas
que insistiam em borrar o papel
queria ele pensar em coisas que não lhe desse mais medo
mais receio
queria aquele abraço apertado que lhe protegia dos temores
aquele abraço quente que se fora com o frio do inverno
tudo, tudo que ele queria era isso
escrevia ainda, insistentemente
enquanto o uivo do vento
doloroso
parecia lamentar sua tristeza
seu pesar
lá estava ele
ele?
o menino.
Qual?
aquele que olhava-se.
espelho?
aquele que temia-se
espelho?
aquele que odiava-se.
espelho?
aquele cujos olhos cristalizaram em lágrimas frias e tornaram-se pedras do gelo de sua auto-comiseração. A alma pobre que ainda, funesta, perambulava tal zumbi pelo fantasma de sua infância
perdida
esquecida
e acabada.
mas tal qual menino
ele tem medo
muito medo
una-se a coragem para a morte em sangue salgado e lágrimas férreas
tudo
tudo que ele queria
tudo
era um abraço
não o teve
e ainda encolhido no quartinho de escrever
abraçando as proprias pernas que já estiveram trêmulas, apertadas contra o coração sufocado
esteve imóvel por muito tempo. até hoje.
"vivendo em tenra agonia
sua companheira
fatal
teve seu pequeno crepúsculo de não-vida
dentro de sua mente
coberta do musgo da insatisfação
infectada
e o pesar foi o maior
empre fora
sempre será
escreve
escreve criança
faz seu berço com as lágrimas que despejas na noite de seu pesar
faz da vida além
o além
que inalcançavel lhe sugere a mentira
e a decepção
dorme criança enquanto pode
enquanto não acordas do sonho
o sonho doce das ilusões humanas"
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