Fogos de Belfast

Eu ainda lembro de quando tudo era divertido e podíamos brincar na neve. Nós não precisávamos de armas para brincar, Thomas. Nunca precisamos.
...

Sim, eu lembro. Nós usamos pedras dentro das bolas de neve e deixamos você desacordado sobre a neve até anoitecer. Me desculpe, Tom. Mas aquilo é passado, e de qualquer maneira não justifica.
Você tem que se entregar, entende? Você precisa se entregar. Toda a polícia está em seu encalço.
...

Olha Tom, papai está preocupado. Ele diz que mamãe teve sorte de não ver isto acontecer. Você nem ao menos falou com ele. Ele já sabe dos atrasados... não, eu não contei. Ele esteve no apartamento.
E ainda assim você conseguiu uma arma. Como você conseguiu, Tom?
...

Isto não está certo. Não seria fácil assim conseguir uma arma com todo esse alvoroço nas ruas. Conte a verdade, onde você a conseguiu?
...Foram eles, não foram?...
Eu sabia. Só poderiam.
E você acha que os Voluntários do Ulster vão livrar sua cara agora, Thomas? Acha que vão te dar abrigo ou te esconder? Eles não querem você. Você foi muito além do que eles pretendiam.
...

Não é um sermão. Você sabe que está errado, Tom. Papai nos ensinou o suficiente quando ainda era reverendo. Ele conhecia os métodos, e as conseqüências. Eu não entendo como você pode.
Nós éramos pequenos, nas ruas do complexo industrial, era frio e éramos pobres. E nós éramos maus. Sempre fomos os piores da turma, mas isto foi longe demais.
...

É, eu falei com o pessoal do pub e eles disseram que você esteve por lá. Você disse a eles que tudo estava bem e eles acreditaram em você.
...

Eles sabem da causa, claro que sabem. Mike ainda acha que você fez o certo, mas eu acredito que nenhum dos outros compartilha das mesma opinião. Pedras e molotovs contra a milícia é uma coisa Tom, mas atirar num padre sem provocação foi muito além.
...

Eles te usaram para os objetivos deles. E agora vão te apagar! É isso que eles fazem.
Para quem você vai pedir ajuda agora? Todos querem a tua pele, a polícia, o IRA, os Voluntários. Para quem você vai correr, Tom?
Você jogou sua vida, jogou tudo pelo ralo. Exatamente como o pai disse.
...

Eu quero te ajudar, Tom. Você precisa me deixar te ajudar.
Nós vamos dar um jeito nisto, como sempre fizemos, irmão. Juntos. Você vai se entregar e...
O que? A porta?
...

Não Tom, não abre...
Tom! TOM!

...

Jefferson Seide Molléri, é escritor de horas vagas, leitor compulsivo e jogador de RPG. As preferências literárias incluem fantasia medieval, terror e romances. Atualmente interessado em dramas urbanos e contos de guerra. Publica seus pensamentos em seu blog pessoal Caindo... e mantém um conto periódico n'os Cavaleiros do Reino do Horizonte.

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