Hoje ela acordou triste, não sabia porque mas estava estranha, se sentia vazia por dentro. Olhou no relógio, xiii, eram seis e meia ainda, perdeu o sono mais uma vez. Enfim, levantou da cama, foi tomar banho, depois o café até que ouve um bip no celular.
Nova mensagem, ela pensa, nossa, quem será esta hora? A mensagem era a seguinte:"Por que você é assim?!". Isto a fez ficar louca o dia todo, quem mandou a mensagem? E era assim como?
Meio dia, ela corre pra chegar na faculdade a tempo, ai que droga de ônibus pensa. Está com o celular na mão esperando mais uma mensagem enquanto pensa:"isto só pode ser brincadeira, quem iria me olhar?".
Mas hoje ela estava estranha, estava ansiosa e levemente eufórica. Chega na aula, olha por todos os lados, afinal quem?! As horas passam, ela chega em casa, nem uma mensagem nova, nem um telefonema, nem nada.
Chega muito brava, está cansada de ser enganada pelo destino, cansada de acreditar em coisas que não existem para ela. Chega no espelho, se olha de cima a baixo e pensa:"não...não sou tão errada assim", e sorri.
Vai na dispensa pega uma garrafa de conhaque, dá um gole suculento enquanto assite o noticiário. Ela é sarcástica, rí das desgraças enquanto bebe seu conhaque.
Lembrou que tinha que comer, pensou bem e pediu uma pizza por telefone, espera e espera. Din don, a pizza chega, ela abre a caixa e sente o cheirinho gostoso, mas come apenas um pedaço para não engordar.
O telefone toca, grita, berra, ela atende calmamente com sua voz aveludada:
-alô.
-quem fala?
-é a Lia, quem é?
_huum, é o...o....
Tú, tú, tú, desligaram na cara dela, lembrou que não pagou os serviços opcionais e sua bina estava desativada. Quem seria? Seria o mesmo das mensagens? Seria um engano? Mais uma vez Lia pensa que nada é para ela.
Ouve um barulho na porta, olha para baixo e vê um bilhete, que susto. Ela abre o bilhete calmamente..."Oi Lia, sabe quem eu sou? Eu te vejo onde ninguém vê, eu te possuo, te desejo e te controlo. Sabe por que? Porque eu te amo. Um beijo do seu cara."
Lia sorri, mas afinal, de quem era o bilhete? São onze e meia da noite, ela vai dormir, deita com um sorriso nos lábios e um brilho lindo nos olhos. Lia sonha, tenta imaginar quem seria enquanto pensa..."te possuo...risos".
No dia seguinte o telefone toca novamente, "é ele" pensa, "alô, oi, foi você quem...?Aaaaaa! Sério? Vou sim, nossa, nem acredito! Um beijo, thau".
Suas mãos estavam trêmulas, falou com ele, ia encontrá-lo, vestiu-se mais linda que o eventual, passou perfume na nuca, colocou uma bota de salto alto.
- "Oi Gabriel! Nome de anjo!"
Gabriel só olhou Lia nos olhos, olhou-a internamente, não disse uma palavra, apenas beijou-a, virou-se e foi embora. Lia não reagiu, estava pasma.
Uma lágrima correu por sua face, após alguns minutos eternos ela foi embora.
Chegou em casa, olhou se no espelho, se sentiu mais feia que o eventual, bebeu seu conhaque, quebrou seu celular, desligou o telefone e tomou uma droga sedativa qualquer. Não pertencia mais aquilo que a cercava, queria ir embora.
Lia arremessou a garrafa de conhaque no espelho, pegou um caco de vidro com as mãos trêmulas e começou a cortar seu pulso, não sentia dor, sentia gozo ao ver o sangue escorrendo, após cortou a veia do pescoço, enxergava embaçado e adormeceu para sempre.
Dia sete de março de 2004:
Capa do Jornal "A Cidade".
"Garota do Leblon encontrada assassinada. Lia, 23 anos, foi encontrada assassinada na sala de sua casa após uma tentativa de assalto, os ladrões cortaram os telefones, após jogaram a vítima contra o espelho e por fim estrangularam-na. A violência no RJ está revoltante, nem a classe média é poupada." (J.S.S - A Cidade)