Desfecho - Adeus Siarë

Rodrigo Pereira de Barros

"De repente a lágrima salgada
caiu dolorida na ferida aberta
fez-se então, doença mal curada
Dádiva maligna, chaga descoberta
sem temor da vida, abandonada
teve a mágoa dos grilhões desperta
Fez seu leito em rosas negras, ecúleos a ferir-lhe o seio
Sono profundo, insensatez, fez-se ausente, fez-se alheio." *

"Meus olhos cansados
de observar
as lágrimas sem sentido
derramadas sem pesar
não foi alegria
que cobriram os claros olhos
pelo amargo ardor
violentados

Não olhe-me mais assim pequena
faz-me doer
faz-me morrer."

A lua estava bela. Bela como jamais estivera. Era uma noite clara, apesar da garoa fina que projetava-se lentamente em seu rosto, formando-lhe uma fina camada úmida. Úmidos estavam também seus olhos antes mesmo da chuva começar lentamente. Úmidos de uma dor que já se mostrava presente antes mesmo de ter certeza. Certeza do que sentia. A dor da certeza. Maldita.

Seus dedos estavam gelados e as cordas do alaúde escorregavam-lhe, molhadas, causando um leve desafinar. Ele ainda insistia procurando a nota perfeita. Tinha que ser a perfeita. Ele devia isso a ela.

___É uma bela canção Bardo.

Sara já o observava a algum tempo, e Vincent já havia notado sua presença tão logo chegara. Estava seu rosto coberto pelos fios úmidos e compridos, colados, a esconder-lhe a face. Estava com uma fina camisola branca, os cabelos soltos como não costumava usar. Seus contornos, o volume dos seios, as coxas fartas, frutos de um treinamento quase militar a fim de protejer sua senhora. Os belos traços levemente ocultos em tecidos tão leves, e agora transparentes devido as gotas cintilantes. Estava ali, ereta, a fitar-lhe profundamente ao balcão de pedra, onde na ponta, sentado, o Bardo dedilhava seu instrumento.

___É uma canção perdida.

___Por que perdeu-se bardo?

___Não perdeu-se bela donzela. Não ainda. Mas há de se perder.

Nisto, ele olha-a no fundo dos olhos, o cabelo também comprido atrás das orelhas, como também não usava, negros. A face pálida, e os olhos brancos, como que inexistentes. A cicatriz a atravessar-lhe o olho, uma mancha clara, quase uma marca fraca. Seus olhos eram ternos como sempre foram. Sara temia olhar para eles, mesmo antes que estes tivessem se perdido no vazio sem cor.

____É belo o sofrimento dos bardos, e proveitoso. É fruto para uma gama de canções tristes e cheias de brilhantismo. Apesar de falso.

___Não é falso, o sentimento dos bardos, senhora. É belo, sim com certeza. Bardos tornam real o mentiroso, e sentem a dor da perda, estando em infinita alegria. porquê julgas os bardos senhora?

___Não cabe a mim julgar tais criaturas cínicas...

___Não a todos mas talvez a um só...

___E quem seria este?

Silêncio. A chuva aumentava lentamente, e ambos fitavam-se. Ele ajeitou o alaúde e tocou uma única nota alta, que ecoou pelo silencio da noite chuvosa, aos pés das ruínas de um antigo reino que outrora fora grandioso.

Ela o olhava da mesma forma crítica e rígida de sempre. Vincent era um bardo e podia notar as reações mais tênues em pessoas mais frias. Via o leve tremor daqueles lábios, e nele, o nervosismo e a súplica.

___Talvez aquele que amas.

Silenciou-se ela. Olho para as estrelas que não brilhavam mais que seus olhos, esforçados em não permitir que uma lágrima deles fosse expelida. Respirou lenta e profundamente. Esfregou a mão em um dos braços demonstrando que sentia frio, e reteve-se de imediato. Fez-se forte novamente. Como sempre fazia.

___Eu...

___Você, se me permite senhora, é antes de tudo fêmea, não somente guerreira. É criatura delicada que sente ao extremo as emoções, bloqueando-as como veneno pérfido, devido a suas responsabilidades para com a nobre donzela, herdeira deste reinado. És forte, não há como negar. Mas falta-lhe a força para admtir as coisas que sentes. Mas para bardos cínicos como eu, não são necessárias as palavras, senhora. Seus atos revelam-me sublimes. E quem seria eu para negá-los?

Ele ergue-se e aproxima-se dela. Ela, rígida, abaixa a cabeça lentamente. Deixa-o tocar em seu rosto de leve, apesar de esconder os olhos em outras direções. Queria fitá-lo, mas teme.Teme algo que não conhece. Queria abraça-lo, mas não poderia.

___Não ficarás... não é?

___Não.

___Estarás longe. Estarás perdido para sempre.

Ele Tomou-lhe a face e beijou-lhe os lábios, desejosos daquele ínfimo momento. Tremeu, fez-se fraca por segundos. Fez-se desejosa, fez-se mulher. Entregou-se a carícia que tanto ansiava.

___Porque faz isso se te vás?

___Não me vou para sempre milady. Não quando algo me prende aqui. Não quando algo mais importante que tudo, faz-me ansiar que meu retorno seja breve.

Sara cobre os olhos com as mãos. Chora copiosamente. Encosta o rosto sobre o peito do elfo, esvaindo-se em desespero de lágrimas. Aperta-o contra si, da mesma forma como ele, em estranho descontrole, abraça-a como que querendo esmagá-la. Lágrimas pequenas cobrem-lhe os lábios, e o gosto que sente não mais é o do sangue, mas o das lágrimas sinceras. Lágrimas que já não mais lembrava de ter experimentado. Amargas.

___Vai trazê-lo de volta?

___Não descansarei enquanto não o fizer.

___Será um caminho tortuoso. Talvez sem volta...

___A amizade é um desses caminhos.

Ela sorriu-lhe o sorriso mais puro de todos os reinos ou mesmo de todas as terras. Este devolveu-lhe. Abraçaram-se mais uma vez. Ele percorreu com o indicador os contornos daquela face lânguida, que tanto amava observar por horas sem que esta percebesse.

___Serei sua essa noite.

___Sempre fostes senhora. E sempre serás.

 

Ao amanhecer, seu cabelos estavam perfumados com jasmim, e os lençois macios cobria-lhe parcialmente a nudez. Estava levemente corada, talvez um pouco doente. Não precisou estender o braço para saber que ele já não estaria mais lá. Bardos não apreciam despedidas. Não aquelas. Chorou sozinha, soluçando delicadamente. Ah, como era bela assim, com os cabelos soltos a ondularem tal seda brilhosa a fronte. Apertou nas mão o objeto que nelas acabara de encontrar, ainda sonolenta. Era um belo cordão prateado, com uma pequena esfera de prata. Haviam escritos élficos nela. era bela como as coisas que o povo das árvores forjavam. Como aquele que se fora.

Beijou então aquele símbolo, antes de colocá-lo no pescoço, próximo ao coração, que pulava-lhe descompassado. Ergueu-se. Vestiu-se. Preparou-se. Havia muito o que fazer naquele dia. Havia muito em que pensar. Havia sua senhora para cuidar.

E numa agonia louca, correu até a janela do quarto de pedra, subiu-lhe a borda e olhando pra baixo do vilarejo gritou seu nome a plenos pulmões pela cidade. Não aquele nome com que todos o conheciam, a que todos o chamavam, não.

Aquele que somente a ela, fora pronunciado novamente. Aquele que a mãe dele tanto amava. Aquele que havia morrido nas escuridões da discórdia, e renascido em uma leve cortina de esperança,
_SIARË!

Ao Vincent/Siarë, por um ano de jogo, e por causar tantas mudanças em mim mesmo.