Outros lados da moeda
Capítulo 1: Introdução, A Cartomante

Maurício Arus

A neve cai suavemente sobre as casas, carros e tudo que está estacionado nas ruas. Isso não impede que todos moradores do bairro continuem com a sua rotina diária, o que inclui as crianças indo para a escola; sejam as mais novas de carro com as mães, pois o pai já saiu pro trabalho mais cedo; ou os adolescentes, que vão hora com seus amigos, hora sozinhos, dependendo do julgamento que os colegas do colégio fazem... Afinal de contas, é uma cidade pequena, se te dizem que és um "nerd", acabas se tornando um.

Após a noite anterior, o orador da cidade havia sido esquecido pelos seus vizinhos. Ele, em particular, não se importa muito com o que os outros andam dizendo dele nas ruas... "Louco", "Herege" e entre outros adjetivos não muito confortantes, são jogados boca-a-fora por aqueles que ele tentava proteger. Ou alertar.

Caminha sozinho pela calçada escorregadia. Desvia o pensamento para aquele lugar sagrado que não o proveu de segurança a horas atrás, e quase escorrega por causa do gelo. Grita:

- Merda!

E recuperasse do susto. Seus nervos estão tão à flor da pele que se assusta com uma pessoa passando do seu lado, sendo que já a havia avistado momentos antes. Começa a rir... Está tremendo, mas não é de frio. Fica imaginando o que lhe aguarda depois das cortinas tipo clichê da cartomante que conheceu quando era jovem, e que não esquecera nunca na vida. Vê a vitrine chamativa da loja de artigos esotéricos e segue até ela. Entra, mas antes olha para os lados e puxa o capuz que veste, reforçando-o para esconder seu rosto. Não gostaria que ninguém o visse, ou lembrasse dele.

Antes de ir para o fundo da loja (sim, ele já era conhecido da casa), observa alguns artefatos interessantes, pega outros que lhe chamam atenção e fica vislumbrado com os que brilham e se mexem. Parece criança... Parece ele mesmo, anos atrás, quando ainda não sabia do seu dom, sua maldição e etc, etc...

Entra na salinha secreta que todos vêem a porta e como sempre, ele se antecede e fala:

- Sim já sei, estavas me esperando. – falando como se fosse grande coisa.

- Se nossas conversas nunca vão a lugar algum, não sei por quê não ficamos em silêncio então. – desdenha a velha cartomante, como que se antecedendo mais no comentário do rapaz... E ainda comenta - Por que continuas vindo?

- Perdão, mas você pôde ver que meus esforços foram inúteis. O que faço agora?

- Pessoas não aceitam facilmente o fim do mundo. - ela pausa o comentário – Aceitam muito mais facilmente do que esperamos, mas ficam curiosos e se não escutam o que querem, desacreditam.

- Sim, mas...

E como quem sabe o que diz, que resposta virá e o porquê, ela se antecede novamente.

- Então não foi em vão. - e o encara como que decepcionada, mas sabendo que o rapaz agiu como deveria.

- Claro, claro. O poder da humanidade de seguir os seus próprios e estúpidos passos. – esbraveja, sabendo exatamente que, da maneira mais dócil, não conseguiria o que veio buscar.

A cartomante não tem poder total sobre o rapaz. Ele agora controla a maioria de seus pensamentos e atitudes, e consegue organizar suas visões em benefício próprio. Conseguiu esse controle sobre seu dom com a ajuda daquela senhora que tem a mesma aparência que tinha há trinta anos atrás. Mas ela ainda tem suas cartas na manga.

- Sente-se. Vou te mostrar as soluções para as tuas perguntas. Só não acho que será agradável o que irá encontrar nas respostas que procuras.

- Pois eu tenho certeza que não serão.