O sol vespertino banhava em dourado as pedras do palácio de Haidarton. Nos jardins, sob uma varanda, lady Katheryne observava o filho que brincava por entre as árvores, brandindo no ar sua espada de madeira e gritando blasfêmias inocentes a criaturas imaginárias.
Sentada numa cadeira de mogno, tinha sobre o colo uma peça de bordado que em vão insistia em terminar. Seus cabelos estavam amarrados na trança de costume, jogados por sobre o ombro.
O pequeno Harleif, que ainda não completara seus 9 anos, era uma criança forte e sadia, que herdara do pai os cabelos castanhos e o sorriso verdadeiro, embora o exibisse com mais freqüência. Os olhos possuíam o brilho melancólico e azulado que lembravam os de sua mãe.
Um toque despertou Katheryne de seus pensamentos. Sara, sua ama e amiga, aproximara-se silenciosamente por detrás dela e pousara a mão sobre seu ombro. Tinha também os olhos fixos na criança.
- O que a preocupa, Katie? - a convivência permitia que Sara a tratasse muito mais como amiga - Seu olhar está distante.
Katheryne silenciou-se por um momento, fitando os olhos da amiga. Muitas vezes não conseguia desvendar o olhar de Sara, mesmo que eles lhe inspirassem uma estranha confiança. Esta era uma destas vezes.
- Vão levá-lo - respondeu secamente.
- Para onde? - Sara espantou-se com sua calma - Quem o levará?
- Maeglin e Luthien. Vão cuidar bem dele.
- Melhor do que você, Katie? - Sara exaltava-se - Deus, você é a mãe dele.
As censuras feriram Katheryne, tanto que baixou os olhos para o bordado, fugindo do olhar da amiga.
- A responsabilidade em seus ombros é grande demais, Sara. Eu temo por ele. Podem matá-lo,... ou usá-lo, desvirtuá-lo. Não confio nos cavaleiros do Reino do Dragão, ou mesmo em quaisquer outros. Se ao menos Harold estivesse...
A voz enfraqueceu e se tornou um mero sussurro que Sara mal conseguiu distinguir. Em seguida, lágrimas rolaram por sobre o bordado, criando pequenas manchas circulares. Sem dizer uma palavra, a dama tomou sua senhora nos braços, pousando-lhe a cabeça por sobre o ombro. Permaneceram silenciosas por minutos, até que o pequeno Harleif gritou:
- Mamãe, mamãe... olhe lá - apontava o céu.
Pouco acima do palácio, uma sombra negra sobressaia-se contra as brancas nuvens na abóbada celeste. Descia com velocidade, agitando com força asas e cauda. Katheryne ergueu-se da cadeira e desceu para o pátio a fim de recebê-lo.
Morion era tão alto quanto uma maciera adulta, em suas quatro patas, possuía garras fortes e uma grande cauda. Dois longos chifres erguiam-se de suas têmporas. Era um dragão, negro como as águas do rio Monroe.
De seu dorso saltou Maeglin. Ninguém soubera dizer sua linhagem com certeza, mas estava clara a descendência élfica em suas feições. Trajava calças e camisa brancas, bastante largas, e era careca, a não ser pela trança negra que lhe surgia na nuca. Seus olhos haviam se tornado amarelados tais quais os de uma serpente, e pequenas veias enegrecidas saltavam-se na face. Ajoelhando diante Katheryne, tomou-lhe a mão e beijou-a.
- Amada rainha
- Prefiro que me trate pelo nome, Maeglin - e acenando com a cabeça, cumprimentou o dragão.
- Tio Maeglin - gritava Harleif, ao atirar-se em seus braços - vai levar-me para voar com o dragão?
- Vou sim, Harry - dizia contemplando de maneira cúmplice os olhos de Katheryne.
- Então vamos, vamos!
- Harleif ? a mãe o chamava - venha cá.
Tomou o garotinho nos braços, ajeitou-lhe a camisa e os cabelos. Procurava disfarçar as lágrimas embora o pesar fosse aparente em sua face.
- Eu vou deixar-lhe passear com Morion, o dragão, porque ele é bastante gentil. Mas você deve comportar-se bem. E deve ouvir com atenção tudo o que o tio Maeglin disser. - parou por um breve instante - Não esqueça da mamãe.
Abraçou-o forte e o pequeno, mesmo sem compreender a plenitude do sentido nas palavras, retribuiu-lhe beijando o rosto com carinho.
Sara, que os olhava com desconfiança, somente voltou a aproximar-se quando a silhueta negra do dragão ergueu-se por sobre os muros. Novamente abraçara a amiga, aninhando sua face contra o ombro, contendo-lhe as lágrimas, desejando ser possível privar-lhe também a dor da perda.
E assim Morion deixou Haidarton, sobrevoando duas vezes o palácio, sob o olhar atento de um jovem elfo de face extremamente alva. Seus olhos inteiramente prateados observavam a partida do príncipe das Planícies do Leão Dourado.
Sob os olhos inexpressivos do elfo, metros abaixo, Katheryne chorava. Seu coração começara a suportar a dor em seu peito, conforme braços fortes a tomavam, protegendo-a.
De costas para o poente, Herleif olhava para o solo. Em uma década havia crescido e tornara-se homem, não somente em porte e estatura, do qual se orgulhava, mas também em intelecto e virtudes.
Em seu queixo crescia uma barba rala e seus ombros se tornaram rígidos, mas permaneceu-lhe o olhar apático da infância. Trajava uma veste de couro pardo, sobreposta por um manto verde. Na cintura carregava a bainha duma espada e no braço esquerdo um escudo. Levava consigo ainda uma mochila repleta de utilidades para um campista.
Ergueu a face para o sol que se ocultava no horizonte, e no sentido dele dirigiu seus passos. Deixava para trás, meio encoberta por heras e musgo, uma pedra branco-acinzentada onde se via escrito, em baixo-relevo 'Sir Harold Audrey, leão prateado, guardião e defensor devotado de lady Katheryne Elysia Leoni'.
Jefferson Seide Molléri, é escritor amador, leitor compulsivo, metaleiro e jogador de RPG. Gosta muito de contos medievais e também os personagens a que dá vida, nos jogos e em sua mente. Surpreende-se ao descobrir, em músicas (como Defender, Manowar) citações que parecem fazer alusões a suas próprias criações. Seus personagens tomam vida em seu blog pessoal Caindo... e mantém um conto periódico n'os Cavaleiros do Reino do Horizonte.