Caminha sorridente pelas ruas suas conhecidas, cumprimenta respeitosamente com a cabeça a esposa e o amigo que passam, também sorridentes. Como são belos os dias, frescas as noites, felizes as pessoas! Aqui, todos seus conhecidos. Cumprimenta comerciantes, empresários, políticos, aceno de cabeça e sorriso. Veste-se com apuro, terno e calça risca-de-giz, camisa branca, cravo na lapela, um chapéu preto combinando, sapatos brilhantes ao sol.
As ruas limpas, o perfume das flores, as crianças brincam no jardim de uma praça. Pára e toma um pingado com pão e manteiga na padaria, comentando as notícias do dia com a moça do balcão. Segue para o trabalho, onde é bem recebido por todos os colegas. Todos são imensamente felizes e trabalham com o que gostam. As pessoas conversam todo o dia, enquanto o rádio toca músicas que agradam a todos e o trabalho em dia, que não é demais a ponto de ocupar-lhes todo o tempo e também não é pouco a ponto de não terem nada para fazer.
O sorriso não lhe sai do rosto.
O dia caminha para seu fim, com um pôr-do-sol glorioso no horizonte. Cada dia, todo dia, ele considera o pôr-do-sol mais lindo do que antes. "Haverá um limite para a beleza que o pôr-do-sol pode alcançar?", ele questiona, mas logo prossegue, existem pessoas a cumprimentar e um caminho a seguir. Chega em seu apartamento: ele é imaculadamente limpo, aconchegante e perfumado. Sai na varanda com flores e olha o horizonte, o sol em seus últimos momentos sobre a terra, a noite dominando a paisagem, lindamente marcada por estrelas e planetas.
Não seria ali uma estrela cadente? Tentou pensar em algo para pedir, mas não conseguiu. Que pedir, se tem tudo?
Durante a noite lê algo sobre a antiga mitologia grega, um homem que, advertido para não fazer algo, ainda assim o faz e é condenado a repetição de seu ato inconseqüente pela eternidade. Sorri, histórias, fecha o livro e olha novamente a janela, bebericando uma taça de vinho. Sorrindo, sempre sorrindo. Segue para o quarto e ei, o que foi aquilo? Parecia ter visto algo, mas o que?
Não se importa, apenas um jogo de luzes, busca o roupão, segue ao banheiro, um bom banho, sim, na banheira, relaxar na água quente, sorrir na água quente pela vida perfeita. Estava quase a ponto de dormir quando ouviu as batidas na porta, eram um senhores, a princípio dizendo palavras que lhe escapavam o significado: morte? filhos? esposa? culpado? acompanhar? Então entende: é a tão sonhada promoção! Vieram buscar-lhe para o próximo passo, agora sim sua nova vida, ainda mais feliz.
A princípio não entende quando o colocam em uma camisa apertada, que prende seus braços e suas mãos, mas ao chegar ao seu novo quarto, todo acolchoado, decide tratar-se de uma pegadinha ao novo diretor, uma pegadinha para brincar com ele que tanto trabalhou e agora vê chegar o triunfo, o resultado de seus esforços!
Mas não conseguiu ouvir o que comenta o homem de azul do lado de fora do quarto, com seu colega igualmente vestido:
- ...quando chegaram, o sujeito tomava banho, havia enchido a cara com cachaça. Disseram que passou o dia sorridente, cumprimentando a todos. Se foi ele quem fez, ou se apenas enloqueceu ao descobrir...
Fernando da Silva Trevisan
escreve ocasionalmente no 5v
(vvvvv.blogspot.com)
e pode ser encontrado no e-mail fernandotrevisan@gmail.com