O sol estava saindo meio tímido do meio das nuvens, ganhando forças a cada instante que passava naquela manha de terça-feira. Depois de uma semana de chuvas e ventos fortes, deixando as crianças do bairro San Miguel, presas dentro de casa durante as férias de verão. As privando de suas brincadeiras ao ar livre, já que naquela época os pais criavam os filhos com rédeas mais curtas, e desobedecer a uma ordem poderia levar a algumas horas sem poder encostar o próprio traseiro em qualquer lugar que fosse, sem sentir algumas dores.
O pequeno Pablo, ou Pablito, como a molecada da rua costumava a chamá-lo, estava começando a rezar contra São Pedro, já que o grande responsável pelas condições meteorológicas não estava colaborando. E para um garoto de onze anos ficar privado das coisas que mais gosta, não é uma experiência gratificante, ainda mais para sua mãe, Dona Dolores, que ficava o tempo todo observando para ver se o filho não fugisse para rua durante a tempestade.
A grande paixão do garoto era sua casa na árvore, construída com pedaços de madeira, compensados velhos, algumas partes da antiga casa do cachorro de sua vizinha, a velha Marta. Além de muitos band-aids e iodo, já que suas habilidades com as ferramentas do pai não eram grande coisa.
Pablito estava jogado em sua cama, com as cortinas da janela do quarto fechadas, evitando se deparar com mais um dia de chuvoso, e também para não ter que xingar o santo novamente. Se sua mãe, católica fervorosa, pegasse o garoto desferindo palavras de baixo calão, ainda mais contra um dos apóstolos, ele com certeza sentiria mais uma vez o poder das sandálias de sua mãe.
__ Pablo... Vamos lá menino... Acorde, está um belo dia de sol lá fora... Ou você quer passar o dia todo trancado no quarto? Gritou sua mãe aos pés da escada.
O pequeno garoto de cabelos negros e olhos castanhos, deu um salto em direção da janela, abria as cortinas e se deparou com o que parecia ser o primeiro dia de sol de suas férias.
__ Quem disse, que umas xingadas de vez em quando não fazem enfeito?
Desceu às escadas correndo, embrulhou o café da manhã num pano de louça e correu para rua, ignorando as possas e água e lama. Sabia que poderia voltar a chover, e queria passar alguns momentos em seu el dorado. Subiu o tronco da arvore, mesmo estando molhado, como um verdadeiro macaco, anos de prática, já que sobre em arvores desde o quatro anos de idade.
__ Bem, está meio molhado aqui dentro... Olho para a parte de cima da sua pequena fortaleza... E pensou: Tenho que comprar alguns chicletes para tapar estes furos, não sabia que as tábuas da casinha do Jarbas iam me dar esse trabalho.
Jarbas era um velho buldogue inglês, e o garoto escutou a velha vizinha comentando para sua mãe que queria doar o bichinho, ela não estava dando conta de cuidar do bicho. E aproveitando que também estava precisando de madeira para sua grande obra, seqüestrou o cachorro e o vendou durante uma feira de animais, antes de acabarem as aulas.
Cuidou para parecesse uma fuga, já que era costumeiro o portão da casa da velha senhora ficar encostado, pois ela recebia a visita de varias amigas durante a semana, para tomarem chá e jogar cartas. Pablo passou melado na corda que o amarrava a casinha, para que ele a roesse, e depois o içou pelo muro e o colocou em uma caixa.
__ Bom, pelo menos eu consegui madeira para terminar minha casa, e o Jarbas tem uma casa nova. Mas o dinheiro da venda ainda está guardado, e vou poder comprar os chicletes para remendar o telhado.
__ Vamos ver o que temos nas árvores ao nosso redor... Disse o garoto com ares de um verdadeiro explorar espanhol.
Voltou sua atenção para as goiabeiras do quintal de sua vizinha, sua segunda grande paixão, principalmente as grandes goiabadas vermelhas. Que costumeiramente eram transformadas em musse ou compotas, que para o garoto era um verdadeiro pecado. Passeando os olhos pelos galhos mais altos ele a encontrou perdida no meio das folhas, enorme, uma verdadeira esmeralda aos olhos de um explorador, pedindo para ser arrancada.
Hipnotizado pelo tesouro recém descoberto, ele se precipitou pelos galhos de sua árvore, e pulou em direção do pé de goiaba. Havia feito aqueles movimentos centenas de vezes antes para pegar seu fruto preferido, mas era a primeira vez em enfrentava os perigos de uma árvore molhada. Sentiu seus pés escorregarem, e o escutou o som de um galho rachando.
Sua queda foi amortecida pelos varais cheios de roupas de Dona Marta, quando voltou a si, estava envolto em uma pilha de roupas, cordas e lama, aos sons da voz da velha senhora:
__ Pablito... Seu moleque travesso... Olha o que você fez com a minha roupa limpa? Sua mãe nunca lhe disse que as árvores ficam perigosas depois da chuva... Deixe ela saber o que você andou fazendo por aqui...
E não demorou muito para que dona Dolores aparecesse para lhe aplicar algumas de suas famosas chineladas, e mandá-lo ajudar a lavar a roupa que havia sujado, o que lhe ocupou todo o resto daquela manhã ensolarada. Perto do meio dia enquanto terminava de perdurar às últimas peças que estavam no cesto, o garoto sentindo-se como um prisioneiro cumprindo sua pena, começou a resmungar baixinho com o traseiro doendo:
__ Dá próxima vez eu não reclamo mais de São Pedro...
Por: Antônio José de Mello
Publicitário e Assessor de Comunicação; Fã e colecionador de histórias em quadrinhos, (mangás e comics); Fã de animação, principalmente a japonesa (animês); Desenha, ou pelo menos tenta; Adora cozinhar; Joga e mestra RPG (Role-Play Game); Ama muito a Cissa-chan e sua família; Etc.
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