Um dia saberás

André Gouvea

A mente estava vazia, as dores aumentavam, o vento soprava a última folha que restará no galho; todos estavam espantados, devido a tamanho poder de destruição concentrado na área, fim dos tempos. Apenas uma lembrança, uma única gota de lembrança caiu em toda imensa carga de sentimentos que se recolhiam a sua mente. Porque isto, porque lembrar disto agora pensava, esforcei-me tanto para nada, nunca deveria ter vindo. Ouça espírito te recusas a abandonar está carne, que esperás como acalanto, e que te fazes sobrepujar os mares da desesperança, não poderás perder o controle, não posso. Insanidade temporária, devagando. Muros me cercam, só vejo sangue, maldito sangue. Amaldiçoado sangue que me faz caminhar entre a Luz e as Trevas, doce é o beijo que ela me deixou, amargo em sua despedida, mel, fel. Queria apenas viver, mas não posso, nunca poderei, responsabilidades, promessas inacabadas, ainda não me fiz por vencido e nunca me farei.

Deixem-me em paz malditos, não existe controle para que aqueles que não controlam seus demônios internos, como posso dimensionar o futuro, se olhando me por dentro não controlo minhas vontades.

Se encontro minha imagem nas sombras, acendo uma chama, se encontro o caminho da iluminação fecho a casca que me protege das dores, das cores, do poder. Impulso, pulso latente queima a corrente, corrente de desgraças que persegue a vida e a morte daqueles que falharam, preciso responder, preciso voar. Mestro o discípulo aprendo, sem conhecer, imagino; estou na montanha, no ar, no lago. Sou um sopro que teima, que queima que esconjura na falta da eloqüencia, pois baseio-me na aparência, na forma, nas sombras de um futuro que nunca saberá o que terá a dizer.

Cacem-me, persigam-me, matem-me, sou o predador que nunca soube que era caça, vida de farsas que saboreiam os iluminados, pelados pelas vergonhas passadas na frente da multidão, sou tudo e nada, serei sempre ninguém e ao mesmo tempo alguém, sigo a voz da esperança que grita ao universo a verdade sem piedade da alma derrocada, apenas ouça e veja o brilho da espada reluzente, talvez cadente descer ao inferno, enfermo como as últimas folhas que caem ao chão.