
"Quando minhas mãos tocam o nada... Mas eu vejo através do nada... Vejo o que está além da visão.. Além da vida... Sinto-me tão bem... Por estar novamente aqui... Como antigamente... Aqui... Tu se foste faz anos... E eu aqui permaneci durante anos... Nessas noites... Nessas frias noites ainda te vejo não é meu bem?
À quanto tempo?..."
Ele sorriu e fechou os olhos.. parecia que sua boca havia se mexido.
Escutei aquele homem sussurrar para um ouvido que não existia..
Naquela sala escura e úmida..Ele estava deitado num pano velho..
E eu via o brilho no seu olhar.. Eu, tolo como só eu, procurava a pessoa com quem ele conversava.
Mas não havia ninguém afinal.
"Será que ele estava louco..."
"Não.. apenas conversando com minha amada... " ele olha pra mim dizendo isso.
Consegui ver em seus olhos uma certa maldade. Ou obsessão. Era como se ele tivesse raiva de mim, pelo simples motivo de eu, estar ali, e assim podendo estar desfrutando da mesma visão que ele. Roubando o direito daquele deleite, que era só dele.
Só me lembro do frio entrar em meu corpo..
Seguido de uma visão embaçada..
A sala ficou mais escura do que já era. Senti o chão frio contra meu rosto.
Meu corpo estava leve...
Mas a sensação não era boa..
Sentia que tinha perdida tudo..
Me sentia vazio...
Sentia vontade de chorar..
De gritar...
De me machucar...
Sumir..
... calar
Ouvia ao longe uma voz..
Uma voz muito baixa. Era de uma mulher sim! Tenho certeza. Ela conversava com alguém. "Quem será?"
Nada mais me tirava a atenção. Agora tudo que pensava era nisso. A voz dava boas risadas... "Ela estava feliz"
Meus olhos foram abrindo quando percebi que a voz não era imaginária.. E por saber discernir não ser imaginária, notei que minha consciência estava voltando. Aos poucos senti meu corpo. Cada parte dele. Aonde eu estava mesmo?.. Levantei-me atordoado.
Ao ficar de pé, esfreguei meus olhos, como se fossem pára-brisas, que precisam ser limpos. A visão foi ficando mais nítida. Mas parecia embaçada. Não por estar, mas porque o cenário ao redor era disforme. Todas as estruturas físicas estavam cinzentas. E era escuro... Tudo parecia ter vida, e morte ao mesmo tempo. Era como um velho navio afundado em um recife de corais. A água mexia tudo.. os panos rasgados, as algas enrolada na madeira podre.. Dando um ar sombrio. Era assim aquela sala. Em vez de água parecia vento.. que levava e trazia as cores e as formas. Senti medo...
Até então. Observando todos esse detalhes, me esqueci do porque de ter acordado. (acordado... eu havia dormido?). Foi aí que vi, não muito longe de mim, uma mulher...
Tinha longos cabelos loiros. Que pareciam ter vida própria.. se mexiam como os de uma sereia no mar...
Era uma linda mulher.... Que conversa com alguém...
Alegremente conversando com alguém. Ela ria gesticulava... parava.. e beijava...
Beijava?... o ar?
Não havia ninguém ali..!
"Ela estava louca?"
Olhei o chão e fechei os olhos... coloquei minha mão na parede... uma tontura repentina me abateu.
Meus olhos se abriram em choque novamente...
... levantei minha cabeça rapidamente.
Seus olhos eram azuis e frios. E sua respiração estava em meu rosto.
A vi diante de mim..
Parada silenciosa... Não mais feliz, e nem tão pouco triste.
... sua mão ultrapassou meu corpo..
Como?...
Eu não estava sentido dor!
Nem mesmo olhava para a mão dela quando senti.
Era como se o corpo dela.. entrasse em mim. Mas não havia o corpo... apenas algo traspassável, enevoado.. quente e frio...
Meus olhos se fecharam vagarosamente...
Mergulhei outra vez em um nada..
Aonde eu não era nada.. além de uma existência..
Não! Mas assim pelo menos uma coisa eu era... E na verdade nem isso eu sabia que era..
Não conseguia saber onde eu estava.
Não o lugar... Mas sim eu mesmo.. eu havia me perdido de mim..
Não consegui sentir nada..
A não ser que ela avançava mais..
Os corpos.. que desafiavam as leis da física.
Ouvi outro coração bater.
Senti outros desejos...
Senti outros medos..
Senti... frio... senti calor...
Uma gota solitária caía.. e fazia um barulho metálico no que ela batia..
Devagar a gota parecia mais perto..
Era incrível como aquela gota fazia parte da minha vida agora... pequena gota.. transcendente gota..
Gota... ?..
Era o barulho de uma pia.. uma torneira mal fechada.
Foi incrível como o sentido da minha vida se tornou apenas uma torneira mal fechada..
Minha cabeça doía. Meu rosto estava machucado, o chão era frio e via-se que não era varrido à muito tempo. Meu corpo estava dolorido.
Cambaleando me levantei. Apoiei-me na soleira da porta e doentiamente me levantei. Com os olhos fechados e apertados, como se isso fosse melhorar a tontura e a dor aguda no lado esquerdo da cabeça.
Estava em pé, isso eu sabia. Com a mão na cabeça e os olhos fechados..
-porque não mantive meus olhos abertos?-
Uma mão seca, calejada e mesmo assim quente tocou meu rosto. Ela parecia segurar a coisa mais maravilhosa do mundo, devido o tamanho do cuidado do toque..
Depois de alguns poucos segundos (tempo que levei para me entender o que acontecia) abri meus olhos assustado...
Aquele homem me olhava... Era o mesmo brilho de antes..
Eu havia visto aquele brilho..
Meu coração bateu mais rápido.. Minhas pernas estremeceram-se.. Mas meu peito.. Esse não estava com medo..
"Conseguisse querida... ?"
Quase que minha boca teve vontade própria..
Eu tinha que responder! Eu precisava responder... eu ia dizer... que ... Sim?...
Finalmente meus sentidos responderam... Só me lembro de ter fechado a porta na cara dele... E depois... Corri!.. Corri! Como nunca.. Corri pra longe...
Cambaleie pra fora daquele casebre abandonado... E sabia eu, que ele viria atrás...
Mas afinal! Fiquei feliz ou triste com aquilo?...
Confusão...
Raiva...
Desespero...
Continuava correndo!.. Corri até aqui!....
Está tudo escuro. Eu não sei onde estou... Parece um beco..
Mas não quero saber!
Meus braços estão dormentes, e sei que estou machucando e esfolando minhas mãos de tanto esfregá-las..
Balanço-me pra frente e para trás freneticamente...
Fechando os olhos com força... "Não tem ninguém aqui.. não tem ninguém aqui.. não tem ninguém aqui.. não tem ninguém aqui.. não tem ninguém aqui.. !!"
"Você não entende...?"...- a mesma voz cortante e feminina ecoa..
"CALE A BOCA!!!"
Minha voz ecoa no silêncio mórbido..
"Não vai fugir agora.. isso está apenas começando, meu caro.."
... "CALE BOCA!!!!.... cala boca..
...Cale...
....a...
Boca"....
Depois de tantos anos.. a voz fria não me faz mais mal algum...
É até confortante...
A escolha que não tive... não faz diferença...
E o que ela sente... não é o que eu sinto...
Fecho meus olhos...
E esqueço... me escondo... e vago.. por um mundo cinzento..
enevoado..
Onde apenas os gritos de prazeres mundanos me assolam..
Onde eu não vejo...
Mas sei que minha alma está sendo estuprada... violada!
No fim...
Minhas lágrimas secaram...
Meu orgulho se foi...
Apenas resta a casca vazia...
E o inferno... não é tão ruim...
Morgana D'Almeida RibeiroEstudante da Segunda Série do Ensino Médio. Morgana é uma ruivinha de cabelos encaracolados, meio doida, fora do padrão, meio feliz, meio triste.. meio diferente e igual à todo mundo. Uma succubus kawaii. Atualmente mantendo um fotolog: Yumeforever (http://www.yumeforever.fotolog.fot.br), aonde coloca alguns de seus escritos. Mantém (ou tenta manter) uma recém formada banda de Gothic Metal, aonde faz dupla de vocal com Giovana Dias (aqui mesmo do meloDrama).