
Ele olha o escritório, que por sinal é muito bem arrumado e elegante. Um tapete cobre todo o chão do lugar, que é ligeiramente grande para um escritório, uma enorme mesa redonda fica no meio com várias pastas e papéis, e várias estantes de livros cobrem quase todas as paredes, exceto uma que está coberta de quadros. A excessiva luz vem do teto, onde existe um enorme lustre com mais de cem velas. Na sala ainda somente com as duas figuras, Ludmilah quebra o silêncio:
- Papai deve estar terminando de se arrumar e já vem.
- Ah, sim. Seu pai. Às vezes me esqueço.
- Se esquece, mas como?
- Fico em meus pensamentos imaginando como um drakulon tão ilustre como seu pai consegue ter uma filha tão...
Nesse momento, são interrompidos:
- Akuma! Há tempos que não o vejo!
Ludmilah fuzila Akuma com o olhar, e este se vira de costas pra ela, para cumprimentar seu pai, o drakulah da cidade:
- Senhor.
O pai de Ludmilah é mais baixo que Akuma, tem no máximo um metro e setenta, mas sua pose o faz parecer aos olhos de quem o vê ter mais de um metro e noventa. Seus cabelos negros começam a ficar grisalhos na parte lateral da cabeça e junto com seus olhos também negros formam uma mistura perfeita de competência, autenticidade e poder. Com um terno elegante também escuro ele se dirige mais uma vez a Akuma:
- E então. Pronto pra mais um serviço?
- Claro. Quem vai ser?
Então ele olha para sua filha Ludilah e sorri. Akuma não entende:
- Mas...senhor, a sua filha. Eu não entendo. Devo...
É interrompido pelo drakulah:
- Não! Você acha que iria matar minha própria filha! Não sou nenhum Aracnon não! Muito pelo contrário, quero que a vida da minha filha seja protegida com unhas e dentes!
- Como assim, senhor, eu não entendo.
Ludmilah intervêem:
- Papai, é melhor você ir aos finalmentes! Assim só está confundindo a cabeça do pobre Akuma. O que meu pai quer dizer é que você vai ter que me proteger entendeu? Vai ser meu guarda-costas.
E pela primeira vez Akuma muda sua feição, e olha pro rosto de Ludmilah não assustado, mas inconformado. Drakulah confirma:
- É isso mesmo, Akuma. Preciso que você seja o guarda-costas da minha filha por algum tempo. Mais precisamente umas semanas em uma viagem que ela terá de fazer por mim.
Akuma ainda não se conforma:
- Mas, eu, senhor. Não. Eu não faço esse tipo de trabalho.
O drakulah põe a mão no ombro de Akuma:
- Eu sei que não é esse seu trabalho, mas preciso do melhor dos melhores para cuidar da minha filha, e você é o melhor que eu conheço.
Akuma resiste:
- Não. Não faço esse tipo de trabalho...
O drakulah apela pro bolso:
- Quanto você cobra por serviço. Cinqüenta moedas de ouro, não é? Te pago cem!
Akuma resiste e nega. O pai de Ludmilah insiste:
- Duzentas, trezentas, quinhentas, mil moedas de ouro!
Quando ele fala a palavra mil, Akuma muda sua feição.
- Então por mil...topa? Se não topar tem muitos outros por aí que...
Akuma interrompe:
- Negócio fechado.
O drakulah suspira e olha pra Ludmilah, ela põe a mão no rosto e abaixa a cabeça:
- Bom, devo admitir que é caro. Mas se for o preço pra ter minha filha aos cuidados do melhor guerreiro a região...
Ludmilah retruca:
- Papai, ainda tem tempo do senhor mudar de idéia e...
- Não, minha filha! Negócio é negócio! Eu contratei o melhor e sua vida vale isso!
Ele vira para Akuma:
- E então, posso te pagar tudo no final?
- Quinhentos agora, quinhentos depois, como garantia.
- Um momento, eu já volto.
O drakulah sai do seu escritório. Ludmilah vira-se para Akuma, em tom grosseiro e cínico:
- E então, feliz? Agora terei que te agüentar em uma viagem de mil quilômetros.
- Mil quilômetros, tudo isso?
- É. Não pergunta pra onde tem que ir antes de fechar negócio acontece isso?
Akuma fica quieto. Olha para o lado com um olhar que abriria um buraco no chão. Ludmilah provoca:
- Ah, ficou quieto de novo né? Sabe que eu estou certa.
O pai de Ludmilah entra novamente pela porta, ele trás uma sacola enorme e pesada:
- Aqui está. O resto você ganha quando trouxer minha filha sã e salva.
Akuma ironiza:
- Pode ser só salva?
- Ahahaha! Claro que pode.
Akuma olha pra Ludmilah provocando ela, esta fica nervosa e em seguida diz para o pai:
- Papai. Ele terá que pelo menos lavar suas roupas pra viajar comigo, não terá?
- Claro minha filha, e melhor. Eu aposto que antes da viagem, Akuma comprará roupas novas pra viajar com você, afinal ele tem dinheiro de sobra.
Akuma olha feio pra Ludmilah, faz uma pergunta ao drakulah:
- Quando partiremos?
- Amanhã ao anoitecer. Esteja pronto às sete horas.
- Tudo bem, até amanhã. Boa noite.
Os dois despedem-se de Akuma que vai se retirando, mas o drakulah o chama novamente, ele se vira:
- Caso aconteça algo com a minha filha, é melhor você nem retornar mais a esta cidade compreendido?
Akuma, sério, faz um sinal de afirmação com a cabeça e se retira.
Já amanhecia quando Akuma chegou em seu pequeno quarto localizado no centro da cidade. Os comerciantes desmontam suas tendas e se retiram. A cidade começa a ficar deserta.
Akuma entra em seu quarto bagunçado. Retira seu sobretudo e o joga em qualquer lugar. O cheiro forte já não o incomoda mais. Ele olha os dois cantos do quarto, e em um deles uma pilha maior de lixo chama sua atenção. Ele o retira, e ali está um baú fechado. Akuma abre.
Dentro do baú ele guarda seu tesouro mais precioso, um tesouro que nenhum ouro do mundo pode comprar. Suas duas espadas sagradas, inquebráveis, forjadas a mais de cem mil anos no antigo mundo dos homens, por pessoas que moravam em pequenas ilhas que não existem mais, chamadas de Japão.
Ele pega uma a uma e desembainha. Os primeiros raios de Sol entram no seu quarto e refletem nas espadas. Akuma não desvia nem fecha seus olhos. Quando está com suas espadas, ele não recua de nada.
Ele guarda as espadas novamente. O Sol agora incomoda seus olhos, ele sai da sua mira e deita na cama bagunçada, adormece assim mesmo.
Noite seguinte. No horário previsto na frente da mansão, às sete horas. Ludmilah já está aflita, e reclama com seu pai. Os dois esperam Akuma com uma carruagem toda negra, com cortinas também negras que impedem que o Sol penetre na mesma, um lacaio está do lado de fora da carruagem para guiá-la, e dois cavalos também negros estão na frente para puxa-la.
- Eu sabia papai! Sabia que ele ia atrasar!
- Calma filha. Acabou de dar sete horas. Ele já deve estar chegando, olha lá, não é ele vindo ao fundo!
Ao longe Akuma aproxima-se e aos olhos de Ludmilah, ele parece estar um pouco mais belo, mas ela não assume isso. Agora, com roupas limpas e de banho tomado ele até parece outra pessoa. Suas espadas vêm penduradas as suas costas, em diagonais, formando quase um X, mas inclinadas para a direita. Akuma se aproxima, o drakulah o cumprimenta, mas Ludmilah satiriza:
- O que não faz um banho hein! Viu como é bom às vezes?
Akuma ignora Ludmilah e vira para o drakulah:
- Pode ficar tranqüilo que ela está em boas mãos.
Ludmilah sobe na carruagem com a ajuda de seu pai. Akuma sobe logo em seguida e antes que pudesse fechar a porta o drakulah fala pra ele:
- Confio em você.
A porta da carruagem se fecha. É ordenado para que o lacaio comece a viagem. Ele dá uma chicoteada nos cavalos, que saem a toda. Do lado de fora, o drakulah olha preocupado.
Ainda dentro da cidade, a carruagem agora passa pelo centro da cidade, Akuma de vez em quando abre as cortinas e dá uma espiada pra fora pra verificar se anda tudo bem. O lacaio apenas guia os cavalos e a carruagem e nunca olha para trás.
Mas quando eles estão chegando as fronteiras da cidade, a carruagem dá uma parada brusca, e os cavalos empinam chamando a atenção dos seus tripulantes:
- O que foi isso?
- Eu vou saber? Você que é o guarda-costas. Vai verificar!
Antes que Ludmilah terminasse de dizer as últimas palavras, Akuma já estava do lado de fora da carruagem, e no meio da estrada cercada de árvores por todos os lados, à frente dos cavalos, ele trocava palavras com alguém:
- Então achou que ia sair da cidade e fugir com meu dinheiro, não é?
É Sírio, que não veio sozinho. Ele trouxe junto consigo mais quinze drakulons armados de facas e pequenos foices, alguns portam espadas. Incluindo aqueles que haviam levado uma surra de Akuma, estes ele reconheceu pelos hematomas ainda não completamente cicatrizados no rosto.
- Será que ainda não aprendeu sua lição seu gordo imbecil?
- Uahahahaha! Não! Você que ainda não aprendeu. Eu vou pegar meu dinheiro de volta nem que eu tenha que vender suas tripas!
Os quinze drakulons avançam ao mesmo tempo, e então Akuma desembainha apenas uma de suas espadas. Um barulho de cortes e sangue jorrando é ouvido, seguido de gritos, e um silêncio que toma conta do lugar.
Um cheiro de sangue e morte surge vindo do chão. O lacaio se paralisa ao ver tal cena, e Ludmilah que acabara de botar sua cabeça pra fora da carruagem também fica pasma; Todos os drakulons que atacaram Akuma, exceto Sírio, foram cortados na altura do coração, e bem nesse momento eles se transformam em pó bem diante dos seus olhos.
Apenas Sírio foi deixado vivo. Mas foi cortado da cintura pra baixo, e rasteja no chão perto dos pés de Akuma, com suas tripas arrastando no chão. Ele tenta afastar-se, mas sem pernas fica um pouco difícil. Akuma calmamente apenas o vira de barriga pra cima com o pé. Ele olha bem nos olhos de Sírio:
- Não. Por favor...
Akuma apenas faz um sinal de negação com a cabeça e em seguida crava a espada no peito de Sírio, visando seu coração. Ele dá um grito e em seguida vira pó. No chão ao redor de Akuma não resta uma gosta de sangue, mas sim apenas um bocado de pó.
Akuma guarda sua espada de volta e se dirige a carruagem, quando passa pelo lacaio ordena para que ele siga viagem, este obedece sem questionar uma só palavra. Ele entra e fecha a porta da carruagem como se nada tivesse acontecido.
Ludmilah está olhando fixa pra ele, Akuma apenas diz em tom calmo e sério:
- Apenas alguns assuntos inacabados.
O lacaio toca a carruagem e eles cruzam os limites da cidade. Agora realmente começa a viagem.
Continua...
Bruno Montoro Borba