
É de noite, está gelado na rua, mas não precisa se agasalhar
para dar uma volta. Não tem movimento nenhum na rua, ninguém mesmo
anda essas horas na praia, e o barulho que se pode ouvir é o do
vento batendo nas folhas das árvores, que por sua vez caem na calçada,
e as ondas quebrando, indo e vindo no mar. As luzes da beira mar
estão todas acessas, os edifícios iluminados, as lojas exibem suas
logomarcas e os quiosques apenas deixam ligadas uma lâmpada do
lado de fora, talvez para espantar algumas pessoas com más intenções.
Ele não quer mais romantizar o cenário: é isso, e só.
Sai lentamente de sua cama, mas não lembra de estar dormindo antes
de levantar... Não importa. Coloca os pés no chão e quase como
que por impulso, levanta. Caminha lentamente em direção da sala,
estralando os ossos do corpo enquanto caminha com a casa toda escura,
tateando pelas paredes por alguns instantes até lembrar que conhece
o lugar, soltando assim os braços e andando quase cego pelo corredor,
chegando então, na sala.
É tudo muito rápido, mas parece passar tão devagar... Ele vê a si
mesmo andando várias vezes pelo corredor, chegando de diferentes
formas, e milhões de coisas passam pela sua cabeça naquele instante.
Ele leva a mão até a testa, mas não sente dor de cabeça, então a
recua e se estica, quase que se espreguiçando no meio do lugar,
enquanto olha pela janela da sacada, e vê o cenário do lado de
fora.
Aproxima-se da sacada... Tudo parece tão atemporal. O que ele
lembra de coisas que parecem terem acontecido ontem, mas na verdade
foi a uns quatro anos atrás. Parece sim pouco tempo... Talvez a
esperança tenha mantido esse laço com o passado, que sempre pareceu
tão presente, fazendo com que o futuro chegasse mais depressa do
que ele esperava. E ele contempla o mar... O seu swing, sua cor,
seu brilho noturno. Coloca sua mão no para-peito da sacada, que
a congela imediatamente, arrepiando todos os pelos do seu braço,
aguçando a sua vontade de voltar pra cama, para voltar a fazer
o que ele estava fazendo antes... Que ele não lembra exatamente
o que era.
Que vago, seus olhos, apertam, e ele fita como que com sua visão
de raios-X o quarto, através da parede. Então ele curiosamente
volta pelo corredor até a porta, e encara os lençóis arrumados
em cima da cama. Pega os chinelos, uma blusa, meia volta e cozinha.
Quer se alimentar antes de qualquer coisa, mas não tem fome. Qual
a finalidade de tudo aquilo?
Caminha lentamente, olhando pro nada, guiando seus passos com
o pouco de concentração desviada para a coordenação motora de seu
corpo gélido. Vai caminhando sem pressa, pois pensara muito, em
pouco tempo, sobre a inexistência do mesmo. Era algo tão complexo
e sem importância agora o tempo, que ele o deixara pra trás. Chega
até o banco onde uma vez, pedira sua garota em namoro. Senta.
Chora quieto. Não lamenta o que passou, sorri por saber que as
coisas estão bem assim. Lamenta sim os amigos que foram perdendo
a fé nele no meio do caminho, talvez pelo fato de ele ser sinceramente
desonesto, ou melhor, honestamente mentiroso, sobre a maneira a
qual ele sentia sobre tudo, e todos. Não por mal, mas nem ele
sabia a verdade. É que todos ansiavam tão calorosamente por respostas
que ele parecia ter (ou ao menos demonstrava assim), que ficava
sem saída.
Ele para, enxuga o rosto com a manga do moletom, respira fundo e
então procura, no céu, a Estrela de Davi.
Há muito tempo ganhara uma, a qual não resistiu ao seu desdém
insensato e o abandonou, até mesmo pelo fato de ele não fazer
questão de guarda-la. Não na época.
Procura no céu, mas não acha. Talvez por estar apenas deslizando
seu olhar pelas constelações infinitas, esteja ele perdido na
imensidão de seus pensamentos, desconcentrando, dormindo,
desistindo.
Então novamente ele se recupera, é difícil resistir o vento e a
chuva fina, que em conjunto, castigam sua face descoberta, a mesma
olhando nesse instante, para a linha do horizonte, que se confunde
com o céu, ambos escuros como o abismo do mundo, da sua imaginação.
Decide ir pra casa, após alisar suavemente o local onde estava
sentado, como que mostrando a um ser superior (sim, ele acredita
neste instante que há um, único, onipotente, presente, ciente) sua
consideração por tudo que já sentiu pela namorada, que amava tanto,
por motivo algum.
Voltando, ele passa a entender que o que sente, é uma pequena fração
do que ele realmente é. O que vai influenciar na sua vida, realmente
não vão ser as lembranças de momentos onde ele aprendeu que o tempo
precisa de tempo, ou que o ser humano perdoa aqueles que ama. Sabe
que sua vida é a estrutura da vida de outra pessoa, que o ama com
tanto afinco que ele desmerece todas as suas paixões por esta. Não
guinará bruscamente sua jornada por um amor platônico e aparentemente
impossível, ou por uma paixonite do passado que agora esta lhe dando
bola, ou até mesmo o maior de todos os seus amores. Ele deve algo
para alguém, e vai retribuir o favor até a hora de sua morte.
Apenas caminha de volta, como quem compreende o que deve fazer,
mas mesmo assim não compreende o por quê nem mesmo como as coisas
acontecem. Olha de relance para o céu, uma ultima vez, suficiente
para encontrar a estrela que estava procurando. Não que esta seja
idêntica, mas reflete o mesmo brilho, e trás o mesmo sorriso para
o seu rosto que aquela costumava trazer. A mesma felicidade, o ar
de satisfação, mesmo que sem motivo cientificamente comprovado,
ele entende que foi perdoado.
Com as chaves, ele abre a porta da entrada, do elevador, do apartamento. Tira os chinelos como que num ato de entrega.
Começa a sorrir novamente, mas agora parece que é sua ultima vez. Ele ri alto, mas discretamente, olha para o teto e agradece. Volta para o quarto tranqüilamente e não se assusta ao ver-se deitado na cama, com uma aparência fria, sem vida, sem emoção, sem gloria nem caráter nenhum. Segurando um livro, talvez seu preferido: "nas margens (...) chorei".
E fica triste novamente. Ele não quer, justo agora, que ela entre em contato, que diga alguma coisa confortante, alguma coisa bonita, generosa assim como ela sempre foi. Gostaria de explicar que não pretende magoa-la, que apenas achou que era hora de desabafar. Não pretende, justo agora, voltar para junto dela, já que ele finalmente entendeu que aquela parte dele jazia ali há quatro anos já.
Removendo dali o corpo daquele que um dia, havia perdido a estrela mais amada e mesmo assim de desconhecimento do próprio, ele deita na cama e tenta dormir.
Mas ele lembra, ele vai lembrar de si, que viver valeu a pena, e que teve um final feliz.
"Nós, seres humanos, assimilamos as pessoas com sentimentos, e às vezes, amamos mais de uma criatura nesse mundo. Não se culpe por amar mais de uma vez, nem por deixar de amar. O que importa é considerar, o que um dia existiu, não desapareceu, mas se transformou em algo mais, que vai voltar!"
Dedicado a minha Amada Estrela de Davi.
Maurício Arus