
A campainha tocou logo cedo. Ainda de pantufas e com a escova de dentes na mão corri até a porta, mas não havia ninguém no corredor. Ouvi uma risadinha marota e me voltei para as escadas, mas somente um vulto escuro passou pelos meus olhos.
Mas diante da porta havia uma pequena cesta de vime coberta por papel de seda. Ergui cuidadosamente e fechando a porta com o pé, levei-a até a mesa da cozinha. Sob a cobertura de papel haviam dezenas de lembranças, congeladas em papel brilhante.
Algumas eram alegres e amareladas, laranjas ou vermelhas, mas também haviam aquelas verdes e as azuis... ah, as azuis... grandes panoramas celestes que continham o brilho dos nossos olhos. Haviam as velhas lembranças em sépia, e os dias melancólicos impressos em preto e branco, nebulosos e desfocados. Fotografias de tudo quanto é tipo e gênero.
Eram figuras de tempos que eu nem lembrava mais, de pessoas que mal recordava e que nunca imaginei haverem sido fotografadas.
Uma velha imagem de meu pai e mãe comigo ao ventre, e outra de meus irmãos rolando sobre a relva do sítio de meu tio-avô. Uma fotografia do Cristiano nos tempos de primário, e as velhas rachaduras do meu quarto. Havia uma da noite estrelada vista de sob a cortina e uma das primeiras imagens do meu cachorro. Figuras dos meus canários, do meu primeiro amor não correspondido, das quedas e dos passeios de bicicleta, dos almoços de família e da pose de coralista com gorro de natal.
Tantas e tantas recordações... e dentre as últimas, uma foto sua. Agarradinha ao meu braço, sorrindo com aqueles imensos olhos brilhando da maneira que você disse que somente eu sabia fazer. Senti saudades e vi seu recado colado junto a geladeira, dizendo que traria pizza e sprite para o jantar.
Lágrimas vieram aos meus olhos. Sempre buscando boas recordações, não havia percebido quão boas eram as que eu mesmo construi.
Jefferson Seide MollériJefferson Seide Molléri, é escritor de horas vagas, e leitor compulsivo além de jogador de RPG. Suas preferência literátias incluem fantasia e contos medievais, drama e terror e embora metaleiro convicto, aprecia uma boa balada medieval ou um blues melancólico. Curte RPG, como citado anteriormente, pizza com os amigos, desde que haja sprite, e longas conversas em noites estreladas; ah, e também curte viver quando pode, principalmente se isto significar garotas cândidas de largos sorrisos e olhos radiantes. Publica ocasionalmente em seu blog pessoal Caindo... e mantém um conto períodico n'os Cavaleiros do Reino do Horizonte.