Como saber?

Eram as mesmas ruas pelas quais caminhava todos os dias. Pensou que, talvez, se fizesse um safári na África pudesse realmente descobrir, mas não: sua imaginação tomaria conta, ele tinha uma noção do que é uma selva, do que são os leões, os insetos, o mal cheiro, tudo. Não, teria que ser algo totalmente diferente disso.

Mas não sabia como descobrir realmente.

Olhava as pessoas e pensava: Já não as vi antes? Não são sempre os mesmos rostos e, quando novos rostos surgem, não são variações sutis do que já conhecia? Quem são vocês e de onde vêm e para onde vão?

Utilizamos apenas quinze porcento do potencial total do cérebro, e olhe lá, um dia ele ouviu dizer. O que esse restante todo seria capaz de fazer? Imaginar, criar, vivenciar um mundo inteiro, pessoas, personalidades, situações? Lembrou-se do medo que sentia das pessoas que tinham síndrome de down ou algo do tipo: tinha sempre a impressão de que elas sabiam algo que ele não sabia, ou que elas podiam agir de uma forma que ele não tinha idéia qual era, e então?

Lembrou-se também de quando era criança e assistiu a um filme: história sem fim. Um garoto que lia um livro e participava da história. E do "Mundo de Sofia". Os personagens que saiam do livro, sem jamais poderem participar realmente da vida, mas deixando para trás as vidas como meras representações da idéia e vontade do escritor.

Não eram porventura seus passos reais? Não ouvia os sons, sonhava, falava, conversava? Tocou em uma parede e imaginou como as pessoas deviam considerá-lo estranho, ali parado sentindo a textura e imaginando: como saber?

Fernando da Silva Trevisan

Publica esporadicamente no 5v (vvvvv.blogspot.com) e pode ser encontrado no e-mail fernandotrevisan@gmail.com.

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