Eternos ciclos

Caminho pela rua, e ouço os passos em meu encalço. Paro numa esquina como se não soubesse para onde ir. Mas eu sempre sei, sempre. Essa é minha bênção e minha maldição. Nada é incerto para mim, apenas vagamente duvidoso. Ando com mais calma até o telefone público mais próximo, eles não podem saber que eu sei quem eles são. Sei? É, sei. Faz dias que os dois me seguem, sempre com as mesmas roupas pretas e os mesmos óculos fora de moda. Alguém deveria fazer alguma coisa com esses caras... Alguém, mas não eu. O telefone toca. Começa a vertigem. Eu fecho os olhos e sinto. Não é nem preciso atender, eu sei que é ela. Na minha mente explodem imagens de caminhos elétricos e fios, vozes perdidas pedem ajuda, reclamam da vida, choram e riem. O Caos me invade, mas eu sou feito disso, não há perigo. Ela está a uns 5 km daqui, não é um lugar que eu conheça, mas é seguro. Por hora.

Corro até um ponto de ônibus e pego um que está saindo. O importante agora é me manter em movimento. O tempo está contra mim. Na verdade ele sempre está. Malditos ciclos. Isso não poderia estar acontecendo de novo! Me concentro de novo. Eles estão longe agora, mas logo vão me achar de novo. Tudo que eu faço com a vontade eles fazem com tecnologia, e melhor. Às vezes eu tenho pena das pessoas comuns, eternamente presas a um paradigma que elas não entendem, obedecendo a normas morais que não se preocupam com a felicidade e liberdade do indivíduo, mas sim com a submissão e a ignorância. Mas não é hora para libertá-los, eles não saberiam viver sem ter alguém para lhes dizer o que é certo e errado. Entro na mente do motorista, coitado. Três filhos, esposa, sogra, eu quase tenho pena. Ah! Achei! Ele odeia o chefe. Bem, hoje o chefe vai cair da cadeira.

O ônibus vira bruscamente para esquerda, derrubando alguns passageiros no colo dos outros, produzindo xingamentos e olhares constrangidos. Ninguém parece entender o que está acontecendo. Menos eu, é claro, e o motorista que mantém um constante sorriso de vingança. Um pouco de liberdade é tudo que uma pessoa precisa para se sentir viva novamente.

Salto na esquina. Dor, fedor, algo gosmento sob a minha mão. Melhor não saber o que é. O ônibus segue a toda velocidade, rumo a uma ponte e um belo salto. Isso não é culpa minha, o motorista sempre quis fazer isso, só faltava coragem.

Me levanto. Acho que quebrei o braço. Não faz mal. Olho o relógio e ele me atinge com as horas, 3:45, tarde demais. O que houve com o tempo hoje? Não sei nem porque eu pergunto. Está acontecendo de novo.

Saio correndo pelas escadas do prédio. Primeiro andar, meu pulmão não é mais o mesmo. Segundo andar, dor, eu tento mas não consigo ouvir os pensamentos dela. No lugar disso ouço risos, uma mulher neste andar está se entupindo de chocolate para esquecer do ex. Terceiro andar, mais dor. É hora de correr riscos. Paro e respiro fundo. Cada lugar é o mesmo para mim, o espaço não importa. Abro os olhos e estou no sexto andar. Começo a sentir um leve formigamento no cérebro. Eu terei de pagar o preço por isso. Só os tolos acham que algo não tem um preço a ser pago.

Me atiro contra a porta, não há tempo para pensar. Tempo. Dentro do minúsculo apartamento um homem de preto me sorri. Eu sei quem ele é, ou o que ele é. Mas ela não sabe. De joelhos aos pés do homem está a mulher que me trouxe aqui, ela sabia que estava em perigo, mas agora olha para ele como se fosse o único homem de toda a criação. É dolorido ver isso, um espírito livre e dotado de inteligência, submetido a uma outra vontade.

Ela nem nota a minha presença, perdida que está olhando para ele. Já lutamos lado a lado e agora parece que ela é só um fantoche. E ele me olha, por uma fração de segundos, como que me dizendo: "Venci de novo e vencerei sempre. Os justos são ignorados pelos tolos e os tolos controlados por mim". Sinto o vazio em sua mente. Se estes fossem seres com mais consciência própria eu arriscaria dizer que fui amaldiçoado por este povo. Mas não, são apenas construtos do sistema, eles existem para tomar dos fracos a liberdade e fortalecer a certeza dos fortes.

O tempo pára. Eu vejo de novo e de novo, o que aconteceu antes da minha chegada. Ela estava só e desesperada, precisando de atenção, de alguém. Ele chegou horas antes de mim, maldito tempo! Eles quase não conversaram, não era preciso. Esses seres não são para isso. Ela aceitou o que ele veio oferecer, mas pensando que sabia o que estava fazendo. Todas elas pensam assim, é o meu karma. Quando eu cheguei ao prédio ele, instintivamente, ameaçou ir embora. E aqui estamos nós. O que fazer? Não sei porque me pergunto, eu sei a resposta. Cada um é livre para ir e vir, não importa o quão estúpido isso seja. Não sei porque eu ainda corro, sempre acontece igual. Elas vêm e vão, mas algo sempre me diz que pode ser diferente, que eu posso mudar isso também.

Me resigno e espero. Ele sorri e move seus braços sobre ela. O círculo no chão brilha e eles desaparecem na minha frente. Porque o caminho errado é sempre mais fácil? Para que lutar?

Me sento e olho ao meu redor. Eles vão chegar, mais cedo ou mais tarde o ciclo tem de acabar. Ainda sinto o formigamento. Serei punido pela minha imprudência. Fecho os olhos e estou de volta ao meu apartamento. É de manhã de novo e eu sei o que vai acontecer. Eu sempre sei. O ciclo se repete.

Carlos Eduardo Krambeck de Souza

vulgo Carl, é escritor em raros momentos de inspiração e maníaco em tempo integral. Jogador de rpg a mais de uma década, viciado em leitura e estudioso da mente humana.

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