sexta-feira, 21 de maio de 2004. Edição II

A ponta do cigarro chamuscou na pele. dor.
___Não me contento com pouco.
___Mas você tem muito!
Algumas lágrimas caíram novamente, borrando a maldita maquiagem. Contornos negros fortes ao redor dos olhos, se desmanchando com as lágrimas.
Um Tapa.
___Porquê você sempre coloca as coisas dessa forma?
___Porquê você gosta!
___Desde quando algum homen gosta de levar algum murro na cara?
___Desde que ele insiste em fazer a mesma merda repetidamente. Mostra que eles são tão estúpidos, que até mesmo os esquilos são mais inteligentes que eles. Aprendem o caminho, errando algumas vezes. NÃO INSISTEM EM ERRAR.
___Esquilos não se apaixonam!
Silêncio
Lentamente, o dedo retira as gotículas de água evaporada do vidro do espelho. Desenha um rosto sorridente.
___Nós não deviamos...
___Porquê não?
___Porquê eu amo muito...
___Amor é amor. Foda é foda...
Ela coloca as mão por dentro de sua calça.
___Juro que não vou ter ciúmes depois
Casa as escuras. Chove muito
___Sai daqui agora!
___E se eu não sair?
___Eu te mato!
Meia noite.
___Nunca mais olhe na minha cara.
___Eu não posso deixar você ir. Eu te amo.
___Não pensou nisso quando você...
___Porra eu sou homem. Não ve como é dificil aguentar uma coisa dessa?
___Difícil não é impossível.
___Porque você não me entende?
___Tá, entaum eu vou sair daqui e dar pro primeiro cara desconhecido que aparecer. Depois você tenta me entender tá?
___Não é a mesma coisa!
___Claro que não! Porque se eu fisesse isso é por não te amar mais!
Um poste cai. Escuridão como breu. Poucas casas ao redor. Casa de praia.

___Vagabunda!
___Sou é?
___Foi bom trepar com ele?
___Ué você não sabe como é? a quanto tempo ele não te pega?
___Puta!
___Prefiro ser mesmo. Do que ser essa coisa miserável que você se tornou....
Uma das janelas do andar de baixo, solta, não para de bater. Os cães ladram sem parar.
___Quanto tempo? Três anos. O que significa pra você? Nada!
___Você sabe que...
___Cala a boca. Não aguento mais esse seu cinismo. Eu vou embora.
___NÃO!
Ela cai sentada no sofá, ante um empurrão forte.
___DAQUI VOCÊ NÃO SAI!

___Será que você não entende? eu fiz isso porque te amo! Pode parecer estranho mas é verdade!
___Eu tenho nojo de você. nojo!

O vaso cai no chão. Baque alto.
Ele está ali, impassível ante a cena.
Elas estão deitadas dormindo juntas
estão nuas, apenas cobertas com lençol.
Sorriem ambas.
Ele se sente um grande estúpido. Não havia notado. Não queria acreditar. Se sentia tonto e confuso.
Engatinhou até o carro lá fora. A chuva cobria suas pegadas. Parcialmente coberto de lama, ele entra no carro e gira a chave na ignição. Uma. Duas. Três vezes.
Nada.
Limpa o rosto com o braço, mistura de lágrimas e lama. Acende um cigarro pensando em se sentir melhor. Olha pro cigarro e olha pra mão.
E, maldito, ludibria o próprio autor, alterando seu final. Sorri como se pudesse ver o escritor, aquele que provavelmnete guiava seus passos e empurrava seu destino.Ficava divagando se seria esse cara um gordinho de óculos ou um metidinho a cult. Havia criado vida própria, e como que saído do papel, acelerou o carro para longe, onde escreveria sozinho, a história que se seguiria.
As mãos tremem em frente ao teclado. Um leve temor.
Tinha eu previsto lágrimas e sangue pra esta história. Mas o personagem decidira que esta não seria mais uma história de sangue. Não esta.
___Deixe seu recado...
___Alo André, aqui é a Vera. Sei que você não quer mais atender meus telefonemas, mas eu só queria dizer que...
___Vera, faz um favor?
___ André eu... eu... finalmente, eu....
___Vai se foder.

"passe a porta
tranque a chave
remova as dores com a pinça
não
não é no meio do lixo
não é entre o extrume ou as ânsias
não são as pessoas
que cospem na sua cara
mas a podridão
está dentro daquele
que você verdadeiramente mais odeia
porque é a unica pessoa
que você nunca poderá amar
você mesmo"

Rodrigo de Barros
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