sexta-feira, 21 de maio de 2004. Edição II

Perdi

Perdi a vontade:
De te agradar, para não te ver triste.
De escrever para te ensinar, te mostrar as coisas da vida.
De escutar tuas lamentações sobre o que eu deveria ter acontecido com você.
De te olhar com precisão para não te perder dentre a escuridão.
De te procurar em meio ao nada, para depois te achar e esquecer de você.
De te ligar e sorrir para que você ouvisse minha felicidade, que sumia ao desligar.
De te esperar, e ouvir a tua explicação sobre o motivo do atraso.
De escutar musica, para poder te cantar no outro dia de manhã.
De correr pra te encontrar e entender que não davas a mínima ao motivo do atraso.
De tentar entender teu desdém pelos meus defeitos, coisas que fazem parte de mim.
De chorar, imaginando que de alguma forma você estaria vendo.
De viver...

Perdi o sono, as forças, o entender, a sabedoria, a coragem, minha mãe, o incentivo, minhas coisas materiais, minhas memórias, minhas fantasias, meu senso poético, minhas amizades, meu pai, minhas inimizades, meus medos, minhas esperanças, a noção de responsabilidade, de tempo, de volume, de limite...

Perdi o mapa do lugar, o isqueiro, a escova de dente, o boné, o celular, a chave dentro do carro, as chaves de casa, meus livros de cabeceira, o dinheiro da conta, do MM's, o ônibus, o contato do trabalho, a aliança de compromisso, o seu telefone, seu e-mail e sua apresentação teatral mais importante...

Eu Perdi coisas que não podia, o que deveria, o que não queria, o que possuía, o que não conseguia, aquilo que havia...

Perdi isso, aquilo, aquele outro, o isso, o assim e o assado, o queimado e o passado, o presente que me foi dado...

Perdi um dedo, uma parte de mim, uma perna, um olho, duas partes do meu corpo, o andar, a voz, o manusear...

Perdi muita coisa, e suponho que nada ganhei em troca, pois minha visão melodramática do mundo afeta o meu raciocínio e também aguça o egoísmo que a cada dia cresce dentro do meu peito, já que eu mereceria tudo de bom, pois sempre fui humilde e nunca machuquei ninguém.

Perdi o certo, o errado, o reflexo, a auto-escola, autodefesa, auto-estima, auto-sarcasmo, autoridade, autonomia...

Perdi as sete maravilhas do mundo, os presentes dos três reis magos, as sete absolvições para meus pecados, os conselhos dos sete sábios da Grécia antiga, as musas da mitologia.

Perdi você, teu amor, tua presença, tua compreensão, teu chamego, tuas caricias, tua paixão, teus beijos, teu sexo, tua mão, teu olhar, tua voz, tua carta de amor, teu bilhete de já volto, tua mensagem no celular, teu e-mail, teu aviso de já venho...

Perdi-te, e não voltas nunca mais...

Só que eu, não me perdi, de MIM!

Então adeus. Até nunca mais.

Dedicado a teu eterno amante. (in memorian)

Maurício Arus
apoio: GrupoW Soluções para Internet índice | o que é | como participar | contato | outras edições