Se aquele dia chegasse, seria outra. O falso preenchimento dentro de si, sumiria... músicas melancólicas não mais a retratariam tão inconstante e triste, suas palavras não fluiriam de forma angustiante e abafada, e ela nunca teria medo de surpresas tanto quanto tinha.
Sentou-se, um dia desses, sobre a areia da praia. Visualizou toda a imensidão do mar, aparentemente sem fim, e inutilmente quis qualquer razão para amar-se. Agarrou em suas mãos um punhado de areia e o observava escorrer lentamente por entre os espaços dos dedos: quis que suas saudades mais reclusas fossem apenas como aqueles grãos indefesos que caíam sem rumo e sem perdão, juntando-se a tantos outros, com conformidade.
Apreciava a dança das nuvens no céu. Poderia ser nuvem e voar, sem que ninguém a tocasse ou sentisse. Poderia existir, em algum lugar, outro mundo só para ela. Uma sombra colérica de seus mais íntimos desejos mascarava a realidade. A dúvida de conseguir tudo e perder para si, atormentava sua vida ardosamente.
Chega a ser irônica sua falta de auto-paciência. O ato de dar chances para o mundo, respeitar as pessoas que amava e perdoá-las constantemente pelo fato de viver. Seria flexível com qualquer um que não ela mesma. Casava mutuamente com a generosidade e o egoísmo todos os dias, pela manhã.
O aterramento de sua própria existência foi tido como fraqueza por muitos. Por ela, uma grande coragem: deixar de viver morrendo sobre a vida que não pôde ter.
Francine Blasius