Acuso você, devolve a acusação. Tudo verdadeiro, não! Isso é mentira, é falso, não sou assim, nem você.
Gesticula, grita, passa por minha cabeça: e os vizinhos? Que pensarão? Mas sim, nisso tem razão. Me perdoa? Não?
Também te acuso, então. Vê como também erra? Vê como erramos?
Nesta sala rodeada de nós, lembranças, nossas coisas: suas e minhas palavras ásperas, joelho no chão arrastando e sangrando nosso medo.
Caminha pela sala e sinto pena por teu desepero. Quero correr e te abraçar aquele abraço que você adora, mas aqui dentro sinto o desconforto de ceder, quero que entenda que faço isso pelo sentimento que tenho por você! Não podemos continuar, assim.
Concorda, claro que não, se pudessemos não estaríamos brigando. Faz sentido, como tudo, mas onde encontrar sentido em brigar com quem eu quero tanto? Você também me quer? Claro que quer, mas não é assim, entenda...
Esbarra na mesa de centro. Nossa foto juntos, aqueles dias na serra onde pela primeira vez em mais de ano disse eu te amo e você também. Gorros na cabeça para proteger do frio - eu parecendo um bandido, você uma princesa rebelde. Sorrisos largos e honestos, nossos olhos brilham. Mas você esbarra na mesa de centro e o porta-retratos balança, caindo.
O silêncio da expectativa.
Então eu praticamente me jogo no chão para não deixar o vidro quebrar - vai estragar a foto e lembra como era bom naquele tempo? Sempre que olho para a foto lembro, todo esse sentimento me invade e não consigo mais brigar, reclamar ou algo assim. Se você soubesse, aposto que diria algo como "vou pendurar essa foto na sua testa, então".
Seguro o porta-retratos: o vidro não quebrou, nosso sorriso intacto com olhos brilhantes. Como antes. Como agora. Como eu sempre gostaria que fosse.
Fernando da Silva Trevisan