sábado, 8 de maio de 2004. edição 1

Enganos
jefferson seide molléri

O metrô chacoalhava-se a cada seção de trilhos, fazendo com que eu não conseguisse me manter quieto no banco. Tinha meu braço por sobre o ombro de Carin, que repousava a cabeça em meu peito, tão quieta, tão serena.
O vagão estava vazio, a não ser pelo sentinela que voltava agora para casa, cochilando num banco mais a frente. Era madrugada de terça-feira e voltávamos da balada. Carin não aparecia sempre e eu fazia questão de acompanhá-la sempre que possível.
Era ótimo estar com ela, sempre tinha um sorriso sincero para mim, mesmo em seus momentos depressivos, que não eram poucos. Parecia não pesar mais do que uma pluma recostada em mim e seu perfume suave inebriava-me os sentidos.
- Fica comigo?
- Você já me pediu isto uma vez - disse baixinho.
- E você disse que era uma alma livre demais para pertencer a alguém.
- Como o vento.
- Ainda lembro as palavras.

Levantei-me e caminhei para a porta pois nosso ponto se aproximava. Ela veio até mim e passou seu braço pelo meu e assim entrelaçados subimos o lance de escadas rumo a rua. Tudo estava silencioso e deserto a não ser pela garoa fina que nos cobria. Ajeitei o sobretudo e segui rua abaixo.
Eu nunca mais havia largado o sobretudo, desde o dia que elas discutiram. Joana ainda era uma presença forte naquela época, mesmo que estivéssemos separados. Éramos bons amigos, Joana, Carin e eu. Mas era demais.
- Tua busca é a minha busca, lembra? - ela ainda comentava a conversa do metrô.
- Uma busca eterna a teu lado.

Chegávamos ao portão de minha casa. Eu abrí-o lentamente, mesmo que isto não deixasse de provocar o rangido característico. Seguimos para a porta completamente ensopados e ela tirou o casaco de lã, deixando os ombros nus. O vestido caía suavemente até os tornozelos, negro e ligeiramente provocante.
Mas eu me quedava em seus olhos, perplexo, extasiado. Ela olhava-me como pela primeira vez, naquele shopping movimentado. Tanto tempo se passara, tantas discussões, tantas confidências.
Dentre todas as dúvidas, uma única certeza: eu a amava. Como e quanto nunca importaram realmente, pois sempre tivemos um ao outro. Abraços e ombros sempre.
A voz de minha mãe ecoou no corredor - Tranca bem a porta.
- Podexá mãe. A Carin tá comigo e ela vai dormir aqui.
Não houve resposta. Peguei o casaco dela e subi para o meu quarto, deixando-o cuidadosamente a pingar sobre uma cadeira. Joguei o sobretudo ao lado da cama e fui ao banheiro tirar as roupas molhadas. A maquiagem escorria por sob os olhos. Lavei o rosto e deixei tudo mais borrado. Desencanei.
Caí na cama. Ela me olhava da cadeira. Estava meio que deitada com os pés estendidos para a frente. Não podia-se negar o fascínio que provocava.
- Você devia ficar aqui.
- Sabe que não posso.
- Eu ainda espero pelo teu chamado.
- Para a morte?
- Para você.
Ela silenciou-se e pude ver seus lábios contraindo-se. Lembrou-se de uma música antiga e pôs-se a cantar. Acompanhei o máximo que pude, mas acabei dormindo logo. Tive um sono tranqüilo e acordei pouco depois das 10 horas, com o meu quarto vazio e a cadeira seca.


Jefferson Seide Molléri, vulgo FallenAngel é escritor de horas vagas, e leitor compulsivo. As preferência incluem fantasia e contos medievais, além de textos dramáticos e de terror. Publica ocasionalmente em seu blog pessoal Caindo... e mantém um conto períodico n' os Cavaleiros do Reino do Horizonte.


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